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quinta-feira, 23 de junho de 2011

O PIAUÍ E A REPÚBLICA

David Caldas, nascido na terra piauiense de Barras, seria chamado o profeta da República, pois muitos anos antes da proclamação do novo regime brasileiro, esse combativo homem de imprensa, ardoroso antimonarquista, admitiu que o advento republicano se daria justamente no ano em que ocorreu, em 1889. Poucos recordam o bravo jornalista, desassombrado que muito sofreu pela virtude de ter e de defender idéias. Sabe-se que os acontecimentos da história sempre promanam de sérias causas econômicas e dos erros imperdoáveis que os próprios homens cometem. Não houvesse o gesto magnânimo de Isabel e o Trono teria permanecido no Brasil. A máquina aboliu a escravatura e a abolição desta retirou da família imperial brasileira o apoio dos latifundiários e a monarquia ruiu como um castelo de cartas. Mas existem as causas primeiras e as derradeiras e, no meio destas últimas, os acontecimentos de precipitação. Anfrísio Fialho, ferrenho republicano, nascido no Piauí, que o elegeu deputado federal para participar da primeira Constituinte, escreveu "História da Fundação da República no Brasil", em cuja página 29 escreveu: "O coronel Cunha Matos, que havia sido encarregado de inspecionar uma companhia de infantaria estacionada numa das províncias do império, no relatório que apresentou ao ministro da Guerra, fez graves acusações ao comando daquela companhia, o qual era amigo do peito de um deputado". E logo a seguir acrescentou: "Tomando as dores pelo comandante da companhia, o deputado, em vez de limitar-se a defender o seu inimigo, injuria atrozmente, do alto da tribuna parlamentar, ao coronel Cunha Matos, chamando-o de traidor e covarde".

Anfrísio Fialho, republicano, escondeu o nome do Simplício Coelho de Resende, incondicional partidário de Pedro II, e não esclareceu convenientemente os fatos. Simplício nasceu em Piripiri, município piauiense. Jornalista impetuoso e valente. Um dos empolgantes episódios de sua vida pública está no envolvimento da chamada questão militar, formada de circunstâncias diversas relacionadas com a disciplina. Pedro Calmon atribuiu ao parlamentar do Piauí participação direta como fator relevante na fundação da República. Realmente, Simplício rebateu as acusações de Cunha Matos contra o capitão Pedro José de Lima, que teria praticado supostas irregularidades no comando de uma Companhia de Infantaria no Piauí. O parlamentar atacou violentamente o denunciante, transformando-se o assunto em grave caso político. Cunha Matos defendeu-se pela imprensa. Foi preso. Várias ocorrências se verificaram com a participação de civis e militares. Precipitou-se a proclamação da República. Recorde-se que Simplício Coelho de Resende era de caráter forte e extremamente corajoso de atitudes.


A. Tito Filho, 21/11/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 20 de junho de 2011

GENTE CORAJOSA

Padre Joaquim Chaves escreveu que em 1875 só existia uma livraria em Teresina - a Livraria Econômica, na rua Paissandu, que vendia gravatas, leques, botinas, chapéus, lãs, chitas, vinhos, doces, biscoitos, queijos, inclusive livros, papel, pastas e objetos de fantasia. Assenta o bom historiador da cidade que nesse tempo as lojas eram verdadeiros bazares, de sortimento variadíssimo. No ano de 1917, quando se criou na Chapada do Corisco o jogo do bicho e se fundou a Academia Piauiense de Letras, vendiam livros quatro firmas: A. Carvalho e Companhia, Gomes Ferreira, João de Castro Lima, Leocádio Santos Irmão e Companhia. No estabelecimento de João de Castro Lima, que o povo chamava de Juca Feitosa, comprei, aos dez anos de idade, exemplares de Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Bernardo Guimarães, Joaquim Manoel de Macedo, Alencar e outros, brochuras empoeiradas, que se atiravam a velhas prateleiras de uma sala mal iluminada, escondida por trás do salão de vendas. Livro era objeto de categoria inferior, adquirido por gente sem que fazeres, desocupada, segundo se comentava. Na década de 30, M. A. Tote tinha loja na rua Coelho Rodrigues com venda de revistas do Rio de Janeiro, frequentadíssima. Vendiam-se também a coleção Terramarear, de muito agrado, narrativas de aventuras em terras misteriosas, as peripécias do Tarzan na selva africana, romances policiais de Edgar Wallace e a ficção científica de Julio Verne. Bons tempos, leitura proveitosa, suculenta, alimento de inteligência. Deixei Teresina para estudos noutras paisagens. Percorri novas pátrias, como a cearense e a carioca. Um dia regressei aos penates, à casa paterna, à terrinha onde a própria dor dói menos, como assentou o Juca Mulato.

Mais livreiros abnegados, corajosos, foram surgindo na cidade raquítica de leires, em que, ainda hoje, o empresário derrama pelo gogó escocês legitimo de custo acima do salário mínimo, mas se recusa a comprar um livro de autor piauiense. Surgiram o aplaudido Nilo Marinho, de dedicação exclusiva a esse mister cívico de distribuir idéias; o inteligente Nobre, descrente do poder público, perseverante, sincero, muito sortido de obras célebres e populares; o inquieto Cineas Santos, estudioso da vida e do homem que nela se agita, principalmente o teresinense; o incansável Pacheco, teimoso na arte de vender, solicito, rabo na rapadura de propagador de coleções ricas e úteis desde moço. Quem mais? Perdão pelas falhas de memória a respeito de gente do passado e do presente. Ao correr da pena, na pressa jornalística que atormenta, não se pode demorar à cata de registros da história dos livreiros de Teresina. Este rascunho tem o objetivo cujo gesto Clidenor Freitas Santos elogiou, o de dotar a cidade com elegante livraria, edifício de três pavimentos - Gilberto Mendes Farias, a quem, numa manhã de justiça, a Academia Piauiense de Letras fez louvação, estendendo a todos os que dedicaram aos teresinenses o carinho e a nobreza do trabalho pelo desenvolvimento intelectual da cidade.


A. Tito Filho, 28/11/1987, Jornal O Dia

domingo, 19 de junho de 2011

CELSO CENTENARIAMENTE

A 24 de novembro de 1877 nasceu, na pacata vila piauiense de Barras, Celso Pinheiro, que agora, vivo estivesse, festejaria o seu primeiro centenário de nascimento. Foi jornalista desde os tempos de estudante, poeta na mocidade sonhadora. Era filho do terceiro casamento de João José Pinheiro, também pai, em núpcias anteriores, de João Pinheiro e Breno Pinheiro, fulgurantes beletristas do tempo passado.

A quase totalidade da obra de Celso Pinheiro permaneceu inédita. Ele organizou-a em vida, distribuindo-a por 18 títulos, dois volumes de prosa e o restante de lídima poesia. Nas concepções figuram os pais, os irmãos, os filhos, a esposa, as moças tuberculosas de Teresina, a babá da meninice, bem assim os sofrimentos íntimos do poeta, a religiosidade, a beleza dos crepúsculos, as mulheres, os intelectuais. Em "Coroa de Espinhos" encontram-se os últimos poemas, os de uma semana antes de sua morte. Deixou uns cinco volumes de assuntos políticos, inclusive sátiras, justamente os que assinalam uma época de formidáveis paixões do partidarismo piauiense, de 1945 até a morte do poeta, em 1950.

As concepções literárias procedem das neuroses e dos sofrimentos dos seus autores. Celso não se desgarraria da observação. Desde cedo sofreu física e espiritualmente. Milionário de angustias intimas, alucinado de dor, pleno dos martírios que a vida lhe impõe, constrói os versos científicos de que abarrota gavetas e armários caseiros. Ele mesmo conta a sua história sem remédio em cada poema que colhe da alma em pranto.

Augusto dos Anjos realizou Eu com pedaços do coração maltratado. Deflorou e engravidou Maria, de humilde condição social. A mãe do poeta, senhora de engenho, mandou surrar a menina, que morre da surra - ela e o rebento da barriga. Augusto sofreu consequências violentas desse drama doméstico e tornou-se melancólico. Contou a tragédia no seu livro de tantas edições, acima referido. José Lima do Rego, conterrâneo do poeta, disse que ele escondia uma mágoa secreta, um rancor contra a própria mãe.

X  X  X

Em 1972, sustentei que Martins Napoleão, magnífico beletrista aceitava nos seus poemas a morte como processo de extermínio do sofrimento. Assim como Celso Pinheiro, foi Napoleão, no uso da palavra como conteúdo da poesia, como mensagem poética. Em Tomás Gonzaga, tudo se expressa nos adjetivos formoso, lindo. Duro é o adjetivo de Camões. Em Álvaro de Azevedo, pálido, lívio, frio. Napoleão se revela em essência pelo conceito: lágrima, pedra, sofrimento, amor, morte.

Celso Pinheiro consubstancia a angustia do homem martirizado pela crueldade da vida. Os versos revelam o seu verdadeiro psiquismo. Emoção a cada instante, e o vazio da alma, fazem dele um dos grandes poetas nacionais. A dor possessiva sublimou-o em comoventes criações poéticas - que não pertencem ao parnasianismo nem ao simbolismo, como disse Agripino Grieco. Penso que ele pretendeu, da forma que Horácio de Almeida sentiu em Augusto dos Anjos, ocultar o pensamento, num movimento de interpretar os profundos e martirizantes sentimentos íntimos e entregá-los ao mundo objetivo.


A. Tito Filho, 29/10/1987, Jornal O Dia

SETENTA ANOS

A 4 de agosto de 1901 - conta João Pinheiro - reuniram-se, em casa do próprio memorialista, rua da Glória, Higino Cunha, Arquelau Mendes, Luís Evandro Teixeira, Domingos Monteiro, João Pinheiro, Antonino Freire, Clodoaldo Freitas, Manoel Lopes Correia Lima, João José Pinheiro e Fócion Caldas, e criaram a Academia Piauiense, para constante trabalho em favor do primeiro domingo seguinte, o que não houve. A iniciativa faleceu no nascedouro. Surgiram outras associações literárias, como a "Sociedade José Coriolano", os grêmios "Esperança", "David Caldas", e o primeiro “Cenáculo Piauiense de Letras”, em 1913, nascido morto.

Fundaram-se seguidamente o Congresso Estadual de Letras (1914), a Academia Piauiense de Letras (1917), a Arcádia dos Novos (1918), o Cenáculo Piauiense de Letras, pela segunda vez (1927), a Associação dos Moços Teresinenses (1932) e o Clube dos Novos (1946), este sob o comando de M. Paulo Nunes, para falar das entidades criadas antes do primeiro centenário de Teresina, todas de vida curta, com exceção da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, - e este não morreu por virtude dos teimosos e grandes esforços de Josias Carneiro da Silva.

A idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras coube a Lucídio Freitas, jovem poeta muito admirado. Deu-se o episodio as nove da manha de 30-12/1917, no Salão nobre do Conselho Municipal, Praça Marechal Deodoro, prédio em que durante muitos anos funcionou a Intendência e de 1936 em diante a Prefeitura. Fundadores, por ordem do registro da ata respectiva: Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas, Celso Pinheiro e Lucídio Freitas, que foi presidente da reunião.

De 1917 até hoje governaram o sodalício os presidentes Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Matias Olímpio, Martins Napoleão, Álvaro Ferreira, Clidenor Freitas Santos, Simplício Mendes. Desde 1971, vem sendo conduzida humildemente pelo autor destas notas.

A instituição manteve-se fiel a Lucídio Freitas e aos seus nove companheiros fundadores. Funcionou em casas particulares, em prédios oficiais ou alugados pelo governo, viveu sem tostão, aqui e ali auxiliada por governantes decentes que lhe publicavam a revista e obras literárias dos acadêmicos - mas nunca esmoreceu. Possui hoje a sede própria e sustenta-se de pequenas rendas que lhe proporcionam órgãos do governo, e prossegue, com dignidade, o modesto trabalho de bem servir, sem que jamais tenha cobrado de quem quer que seja pagamento de serviços prestados, pois tem como dever precípuo a cooperação com a vida cultural da terra.

Setenta anos está inteirando a Casa de Lucídio Freitas neste dia 30 de dezembro de 1987. Orgulho-me dela e dos companheiros que me ajudam a conduzi-la, no respeito permanente à memória dos que a fizeram e não permitiriam que o ideal morresse - o ideal de Lucídio, tão grande que continua vivo e inspirador.


A. Tito Filho, 30/12/1987, Jornal O Dia

MESTRE ODILON

AS PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ, de Odilon Nunes, em 4 volumes, revelam a saga piauiense, dos primeiros tempos até o fim do período provincial, uma saga com gosto e sabor de tragédia.

Do volume inicial constam a pré-história, os primeiros contatos com a terra, os primórdios da colonização e dos currais, a ausência de disciplina legítima e os governos que deram começo à vida política. A narrativa abrange os índios, a matança destes, a sangueira, o genocídio, as lutas sem fim, as sesmarias, o Parnaíba, riozão famoso, o território imenso de população escassa. Uma vez escrevi que a história do Piauí, no princípio, está no pânico e no vácuo. Dias perigosos: o pânico. A volúpia mortífera das desgraças do meio: o vácuo. Odilon mostra e interpreta isto tudo. Neste ponto o seu extraordinário valor: análise dos episódios, causas e consequências. Domingos Afonso Mafrense e o xará Domingos Jorge Velho - sertanista e bandeirante - penetraram o Piauí com seus troços de gente, e colonizaram terras, senhores de sesmos e de latifúndios, de gado bovino de outras paragens. Sobre o primeiro não há dúvida. Com o outro, o paulista, baita de homem severo e truculento, indicam alguns historiadores e dizem que não passa de lorota a sua vinda ao Piauí, donde saiu para a matança dos Palmares, nas Alagoas.

Odilon estudou detidamente o fato em mais de um trabalho, anotou referencias a bandeiras paulistas que agiam nos sertões do São Francisco. Fim do século XVII. Admirável a ação dos catequistas. O Piauí torna-se cenário histórico empolgante. Já o bandeirante transmuda-se em curraleiro, encourado, nômade, solitário, individualista - são ensinamentos de Odilon. A riqueza era o gado e da rês se aproveitava tudo, a carne, os ossos, o tutano, bofes, cascos, couro, chifres, fezes, até o membro genital enorme do bovino; na panela, no cornimboque, nas liteiras, no gibão, nos arreios, em certos vasilhames de viagem, nas portas, nas calçadas. Muitos falaram dessa civilização do couro.

Sertão desconhecido, ignoto, temeroso. Dizem até que a famosa Casa da Torre, no litoral da Bahia, tinha duas faces, uma para o mar, vigiando piratas e inimigos, outra para as terras de perigos sempre fartos.

Até a independência, a história do Piauí se resume quase na história da pecuária. Bois, vacas, garrotes e bezerros apinhavam os lugares. Cada vez mais cresciam os rebanhos sem mercados. O vacum representava a moeda, o dinheiro. Inexistia patrão. O vaqueiro não era empregado, mas sócio nas reses, e escreveu páginas inesquecíveis na vida piauiense.


A. Tito Filho, 13/11/1987, Jornal O Dia

O CRONISTA JOÃO ISIDORO

Chamou-se João Isidoro da Silva França, português de origem, braço forte de José Antônio Saraiva na construção de Teresina, a primeira cidade brasileira levantada em traçado geométrico, no chão da mata derrubada. As outras são Belo Horizonte, Goiânia e Brasília.

Teresina não nasceu espontaneamente, mas de modo artificial, prevendo-se as ruas e praças. Planta de João Isidoro. No Piauí, os núcleos populacionais tiveram inicio nas fazendas de criação de gado, junto às quais se erguia o templo religioso - e assim começou a futura capital do Piauí na Chapada do Corisco, um lugar de rebanhos bovinos. Faltava a Casa de Deus e o mestre-de-obras de Saraiva logo riscou a planta da igreja Nossa Senhora do Amparo, inspirando-se nas linhas das igrejas nordestinas.

João Isidoro fixou-se na Chapada do Corisco em 1850. Construiu três casas de palhas, uma para a sua residência, esquina da atual rua Rui Barbosa, na Praça Marechal Deodoro, e as outras duas no rumo da hoje rua Álvaro Mendes, destinadas ao corpo policial e aos trabalhadores.

Lançou-se a pedra fundamental do templo católico a 25 de dezembro de 1850. Houve banquete. Muito foguetório. Ia nascer uma cidade. As mulheres usaram vestidos bonitos e se enfeitaram de jóias caras, pois já havia o soçaite da época.

O fabuloso João Isidoro, como disse dele o historiador Moyses Castelo Branco Filho, contou os festejos a José Antônio Saraiva, em carta, por esta forma: "Ao depois de uma missa do Senhor Vigário dita do meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da Comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila, tendo também acompanhado o Alferes do Destacamento as autoridades junto com alguns praças... e mais imensidade de povos  de fora, que aqui se ajuntou, toda esta brilhante companhia... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada e metendo o Senhor juiz de Direito na pedra solene duas moedas, uma de prata e outra de cobre, com o cunho do Império... o dito Sr. Juiz de Direito deu vivas a sua Majestade Imperial o Senhor D. Pedro Segundo e a S. Imperial Família e à Constituição do Império, e o Exmº Sr. Presidente da Província... e ao depois disto, deram-se três descargas à tropa de alegria".

Os convidados vieram da Vila do Poti, que hoje é o Poti Velho.

João Isidoro escreveria a primeira crônica social de Teresina.


A. Tito Filho, 13/12/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 17 de junho de 2011

TEMPO DE FRUTAS

Ninguém mais se lembra de Job Vial, de crônicas saborosas sobre esta Teresina deformada. Job Vial outro não se era Joel Oliveira, pesquisador, humorista, colecionador de estórias de gente e de bichos da cidade a que ele dedicava afeição permanente. Busquei-o agora nos meus arquivos e reli "Quintas e Quintais", numa das recordações de Joel - e nessa crônica está o teresinense preocupado com o cultivo das árvores frutíferas abundantes na capital piauiense - a cidade verde, hoje de matas derribadas e sem pés de frutas de colheita segura para as merendas fartas. Havia terrenos plantados por toda parte, e cada celeiro possuía denominação ligada a mulher do proprietário, como a célebre Lavinópolis, ou recebia nomes de cidades, a exemplo de Olinda, Petrópolis, ou nomes de terras distantes - Granada, Zurich, Catânia, ainda se lembravam santos, Tebaida, Betânia, - e por esta forma se conheciam dezenas de quintas e quintais de Teresina, de abundante produção de variadas frutas - goiaba, groselha, pitomba, carambola, banana, limão, figo, sapoti, laranja - e a laranja tinha variedade enorme e dava trabalho livrá-las dos pulgões, das brocas e de outros males. Quantos nomes de laranjas estão na lembrança da gente: a seleta, a bahia, o mimo-do-céu, pingo-de-ouro, natal, pêra, mel-rosa, da-china, tanja, lima, mandarim, cada uma melhor que a outra. Nos dias que correm ainda se encontram alguns tipos desses ricos alimentos cítricos. Já agora em 1987 sumiu-se o caju. Safra pequeníssima. O caju que nada custava a quem o comia, apanhando-o debaixo dos cajuais nas matas teresinenses, derribadas pelo machado das construtoras. O caju da castanha de que o índio se servia para contar a idade. Cada castanha, mais um ano de vida. Menina de castanha, sim, era menina prendada. Jogava-se castanha nas calçadas, sem lambança. O caju dava ainda a cajuada, a cajuína, o doce, o tira-gosto. O pequenino, o cajuí, tinha também seu emprego. Sumiu-se a manga, ou quase está a desaparecer: a de biquinho, a governadora, moscatel, a jambo, a vovó, a espada, a vista-alegre, a de leite - restam hoje a rosa, a lira, a de fiapo, a manguito-do-correio, por preços inacessíveis.

Joel Oliveira, o Job Vial das crônicas saborosas de antigamente, cultor do humorismo à inglesa, se vivo estivesse se decepcionaria com uma Teresina sem arvores frutíferas, a sua riqueza de antigamente - fartura das mesas pobres e da classe média, num tempo em que os pobres podiam viver e a classe média governava uma sociedade justa e decente.
 

 
A. Tito Filho, 12/12/1987, Jornal O Dia

A ADORÁVEL DORA

O cavalo é dos mais nobres amigos do homem. Nos Estados Unidos, ao mesmo tempo do oeste selvagem, dos caubóis, do reino do gado, rude, dos homens que dependiam da faca e do revólver - tempo da violência, num mundo de libertação explosiva e do derivativo do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substituto da mulher difícil e rara, valia mais a vida do cavalo do que a do próprio homem.

Esse quadrúpede de grande inteligência goza de celebridade universal. Todos os povos lhe cantam as virtudes de resistência e dedicação ao dono, embora se diga cavalo do indivíduo grosseiro e se tomou cavalo como denominação de doença venérea. Cavalo está no jogo dos 25 bichos, de número 11, batiza peça do jogo de xadrez e significa cousa complicada quando na expressão cavalo de batalha.

No famoso D. Quixote, de Cervantes, o pobre fidalgo, criado por esse gênio espanhol, sai mundo afora em luta pelo amor, pela paz, e pela justiça, no lombo de um cavalo velho e escarnado, de nome Rocinante. Os homens envelhecidos gostam de brotos esbeltos, obedientes aos conselhos dos eqüinos - capim novo é que engorda cavalo velho.

Centenas de escritores põem o cavalo nas suas obras de prosa e poesia. Todas as literaturas o consagram em páginas da melhor significação. O nosso José de Alencar, em "O Gaúcho", revela a segura estima que o sul-riograndense dedica a esse quadrúpede de inigualável serventia do homem antes do transporte motorizado.

A lenda e a história enriquecem-se de tipos cavalares célebres, como o de Napoleão Bonaparte. No cavalo alado Pégaso, Belerofonte matou Quimera, espantoso animal, mistura de leão, dragão e cabra, a vomitar continuamente chamas.

Parece que foi o imperador Calígula que fez do cavalo Incitatus senador do Império Romano. E se tornou proverbial o cavalo de Tróia, enorme cavalo de madeira que os gregos, a conselho de Ulisses, ardilosamente construíram e encheram o bojo de soldados armados e mandaram-no de presente aos troianos.

Presente de grego passou a linguagem como ardil, falsidade.

Por mais que se relacionassem cavalos da história, da lenda, dos tempos heróicos, da vida, enfim, só se completaria a lista com os cavalos bonitos, ventas arfantes, crinas ao vento, no gozo da liberdade nas campinas sem fim, - e cada garanhão no Governo ditatorial das éguas esbeltas, no ciclo do cio - os cavalos garbosos que Dora Parentes sabe pintar, ao lado de mulheres sensíveis ao amor vital, - macho e fêmea na maravilhosa compreensão do desejo recíproco.

Dora nasceu num pedaço do Piauí, a progressista Piripiri, e agora veio do Rio, onde pinta mulheres e cavalos, amados amantes em paixão de fogo, para uma visita a amigos e à Academia Piauiense. Dias de convivência inesquecível com essa artista alegre, educada, culta, sem preconceitos, esbelta, sem imitadores na sua arte original de harmonizar a liberdade e o desejo sensual em dois seres representativos, como a mulher e o cavalo.


A. Tito Filho, 11/12/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ROTEIRO DE PEDRO SILVA

Pedro José da Silva era o nome todo. No Rio, onde residia, organizou os dois volumes de "O Piauí no Folclore", a que ele dedicou boa parte da velhice, - trabalhando em cinco partes, os tipos, as cenas, os costumes; a religiosidade, as festas de São João; o ciclo do natal; e por fim as danças típicas e gêneros musicais. Um dos volumes constava de numerosos fonogramas, ou sons gravados correspondentes às letras das cantigas folclóricas.

Nasceu Pedro Silva em Teresina, ano de 1892. Morreu em 1974, na antiga capital da República. Recebi os dois volumes referidos no princípio de 1975, ao tempo dos últimos dias de Secretário da Cultura - e os deixei para publicação na própria Secretaria e só agora, neste 1987, localizou-se a obra de Pedro Silva, mas sem os fonogramas, que se sumiram. Confiada a mim, pela viúva, entreguei-a à Academia Piauiense de Letras. Para atendimento de atencioso pedido de Eugênia Maria Ferraz, nobre mulher que vem norteando a Fundação Monsenhor Chaves para a destinação cultural da entidade, a ela cedi à coletânea de Pedro Silva para publicação e divulgação.

Pouca gente se lembra de Pedro Silva, músico e maestro, organizador, harmonizador e regente da Banda de Música do 25º Batalhão de Caçadores, de Teresina, que tanto animou a praça Rio Branco dos velhos tempos românticos nas retretas do coretinho central. Muito novo, no começo do século, criou, com Jônatas Batista, o Clube Recreio Teresinense, que levou a cena, no respeitável Theatro 4 de Setembro, as peças "Natal de Jesus" e "Jovita".

Esse dois piauienses - Jônatas e Pedro - tornaram-se as duas principais figuras da vida teatral da capital piauiense durante anos.

Pedro foi também fundador da sociedade teatral "Amigos do Palco", de amadores inteligentes.

Entre 1917 e 1925, o 4 de Setembro viveu grandes temporadas com as revistas de Jônatas musicadas por Pedro: "O Bicho", sátira ao popular jogo criado pelo barão de Drummond, no Rio; "Frutos e Frutas", "O Coronel Pagante", entre outras.

O ativo maestro ainda fundou o Pálace, na praça Rio Branco, animada casa de diversões de muita freqüência, e posteriormente arrendou o Theatro 4 de Setembro, instituindo a empresa Silva e Companhia, quando trouxe a Teresina célebres companhias teatrais de outras terras.

Passando a residir no Rio de Janeiro, trabalhou em estações de rádio como a Mayrink Veiga e a do Ministério da Educação, época em que muito difundiu o folclore do seu Piauí.

A. Tito Filho, 10/12/1987, Jornal O Dia    

LITERATURA PIAUIENSE

Quando, em 1973, organizei e comentei, a pedido de Deoclécio Dantas, toda a produção literária de Raimundo Zito Batista, escrevi, no livro que se publicou, o seguinte, a respeito da sua poesia: "Em Zito não há o sentimento da paisagem piauiense. Amadureceu no mundo da máquina, da metralhadora, do avião, da guerra - mas esses temas não se revelam nas suas criações poéticas. Toda a sua temática é melancólica - as angustias íntimas vitais e universais. Verso denso, enérgico, grave, dolorido. Habilíssimo no decassílabo. Sua obra revitaliza os temas fundamentais do amor, do ódio, da mulher, do sofrimento. Puro tradicionalismo estético, de terrível sinceridade, de realidade viva e dolorosa. São raros os poetas como ele, de tanta força expressiva. Há, nas suas concepções, desolada e humana visão da vida e da intimidade do homem. Poesia psicológica - poesia essencial".

Na poesia de Zito não se encontra o Piauí, na sua paisagem social, histórica ou geográfica. Pelo menos não a encontrei, embora lesse e relesse os poemas com dobrada atenção. E outros nascidos em terras piauienses fizeram literatura pelo mesmo jeito de Zito nos versos concebidos: não há temas interiores ou exteriores com o Piauí. Esses autores, pois, como Cruz e Sousa em Santa Catarina, pertencem à literatura brasileira, nunca a literatura da chamada terra natal. Defendo o principio de que a literatura piauiense se comporá dos documentos cujo conteúdo seja de temas de nossa terra, com problemas de qualquer natureza, e se assim acontece, óbvio será que à obra se incorporará o cenário natural piauiense.

O admirável Assis Brasil publicou um livro em que o Parnaíba é personagem principal - e todo o seu cortejo exuberante de beleza e riqueza na meninice do escritor. Do cenário piauiense, social e geográfico do Piauí se apresenta a denominada Teatrologia, integrada dos romances verdadeiros "Beira Rio Beira Vida", "A Filha do Meio Quilo", "O Salto do Cavalo Cobridor" e "Pacamão". Todos os demais produtos literários da inteligência de Assis Brasil - uns 50 livros - não pertencem à literatura piauiense.

Assim penso, salvo melhor juízo dos doutos e entendedores universais do assunto.


A. Tito Filho, 08/11/87, Jornal O Dia

URDA E BLUMENAU

Urda Alice Klueger descende de alemães. Inteligência viva, educada, escreve como gente grande, com harmonia, estilo gracioso, linguagem de muita correção. Publicou três livros sobre a sua encantadora Blumenau, a cidade catarinense dos frios intensos e dos calores hospitaleiros. Fundada por alemão, Blumenau tem encantos mil. Perfumam-na flores sem conta, inclusive essa beleza espiritual que se chama Urda, admirável romancista dos tempos colonizadores, - e a ela a gente como gente, tem um bem-querer constante cada vez maior.

Com data de 27 de novembro, Urda me escreve esta carta de sentimento e amizade:

"Comigo, sua carta de 15.11, Notícias Acadêmicas e o Suplemento Cultural Teresina 123 anos. Interessantíssima a matéria sobre Domingos Fonseca! O repente é uma arte praticamente desconhecida por aqui, lembro-me de uma vez, quando criança, ter visto uma dupla repentista que era atração numa das nossas tradicionais festas de Nossa Senhora da Glória. Os artistas em questão tinham vindo de fora, não lembro de onde, eu era muito pequena, devia ter sete ou oito anos, não dá para lembrar tudo. Mas recordo bem como fizeram sucesso, como entraram noite adentro (a dentro?) cantando, como o povo se aglomerou ao redor do palco, como se ria, como havia aplausos, enquanto eu cabeceava de sono no ombro do meu pai. Foi a única vez na vida que vi repentistas. Agora, Domingos Fonseca, magicamente, traz-me de volta aqueles instantes que tinham adormecido na minha lembrança, e me vejo de novo no ombro do meu pai, e sinto uma grande saudade dele.

Independente da minha saudade, que grande artista que foi esse Domingos Fonseca! Quantos, quantos talentos por este Brasil enorme, dos quais sequer temos conhecimento! Que bom que foi um dia ter tido um contacto com o senhor, que nunca deixa de fazer chegar a minha casa tantas novidades culturais que, de outra forma, não chegariam! Muito obrigada, meu amigo.

O calor voltou a Blumenau, e estou queimadíssima de sol, a pele toda doendo, vermelha como um camarão cozido, até com um cadinho de febre, mas altamente satisfeita pela volta do calor. Que terrível inverno tivemos este ano!

Aguardo suas notícias e as desse Estado que é, para mim, quase que uma continuação de Santa Catarina. Muito obrigado por tudo, até mais ver,

Urda".


A. Tito Filho, 08/12/1987, Jornal O Dia

CAPITÃES DE AREIA

Este ano de 1987 "Capitães da Areia", de Jorge Amado, inteirou cinqüenta anos, publicado que foi em 1937. Livro que pouca gente leu, pois neste país número reduzidíssimo lê cousas sérias, úteis, decentes. Machado de Assis vale como ilustre desconhecido. Muito citado, e citado mal, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vive nas bibliotecas públicas e raras particulares sem leitores e consultores.

A Bahia passou uma semana revivendo as páginas candentes de "Capitães da Areia", analisando problemas e sensibilizando a sociedade para o drama dos menores abandonados - personagens de Jorge Amado nessa obra-lição. Estudaram-se temas que o escritor insinua como o direito da criança ao respeito, a criança e o direito da pessoa humana, a visão cristã do menor, a questão social do menor - e outros, em conferências pronunciadas por gente de sopapo, da espécie de Dalmo Dallari e Marcos Villaça.

Convém transcrever a mensagem de Jorge Amado sobre "Capitães da Areia", a criatura na expressão clara do criador e que faz corar os que têm vergonha na cara. Leiamos, mão na consciência, a ver a quem pertence a culpa neganda: "Os molecotes atrevidos, o olhar vivo, o gesto rápido, a gíria de malandro, os rostos chupados de fome, vos pedirão esmola. Praticam também pequenos furtos. Há 50 anos escrevi um romance sobre eles. Os conheci naquela época, são hoje homens, malandros do cais, com cachaça e violão, operários de fábrica, ladrões fichados na Polícia, mas os Capitães da Areia continuam a existir, enchendo as ruas, dormindo ao léu. Não são um bando surgindo ao acaso, coisa passageira na vida da cidade. É um fenômeno permanente, nascido da fome que se abate sobre as classes pobres. Aumenta diariamente o número de crianças abandonadas. Os jornais noticiam constantes malfeitos desses que têm como único corretivo as surras na Polícia, os maus tratos sucessivos. Parecem pequenos ratos agressivos, sem medo de coisa alguma, de choro fácil e falso, de inteligência ativíssima, soltos de língua, conhecendo todas as misérias do mundo numa época em que as crianças ricas ainda criam cachos e pensam que os filhos vêm de Paris no bico de uma cegonha.

Triste espetáculo das ruas da Bahia, os Capitães da Areia. Nada existe que eu ame com tão profundo amor quanto estes pequenos vagabundos, ladrões de onze anos, assaltantes infantis, que os pais tiveram de abandonar por não ter como alimentá-lo. Vivem pelo areal do cais, por sob as pontes, nas portas dos casarões, pedem esmola, fazem recados, agora conduzem turistas ao mangue. São vítimas, um problema que a caridade dos bons de coração não resolve. Que adiantam os orfanatos para quinze ou vinte? Que adiantam as colônias agrícolas para meia dúzia? Os Capitães da Areia continuam a existir. Crescem e vão embora mas já muitos outros tomaram os lugares vagos. Só matando a fome dos pais pode-se arrancar à sua desgraçada vida essas crianças sem infância, sem brinquedos, sem carinhos maternais, sem escola, sem lar e sem comida. Os Capitães da Areia esfomeados e intrépidos!".    


A. Tito Filho, 07/11/1987, Jornal O Dia

domingo, 12 de junho de 2011

CONTRIBUIÇÃO DOS MOÇOS

Dirigimos o Colégio Estadual do Piauí, o velho e querido educandário fundado por Zacarias de Góis e Vasconcelos, no Piauí-Província, hoje com o nome do fundador - dirigímo-lo no período de 1954-11958, e dele guardamos proveitosa experiência: os moços são bons, amigos sinceros e gostam das atitudes sérias e da ordem, da disciplina consciente, do estudo e da convivência. Desviam-se do caminho certo quando por parte dos adultos recebem a lição da sem-vergonhice, da desonestidade, da desfaçatez, do inescrúpulo, do cinismo. Existiriam, pois, maduros transviados, e o transviamento do jovem se daria por através daqueles.

No enterrado mês de setembro de 1987, decorreu o primeiro centenário de nascimento de Raimundo Zito Batista, poeta de bonitas concepções líricas, nascido em Natal, povoado de Teresina, depois unidade piauiense autônoma com o batismo de Monsenhor Gil. Estudiosos universitários dessa simpática comunidadezinha, antigo quartel de Luiz Carlos Prestes no cerco da capital piauiense, demonstraram que a mocidade tem riqueza cívica e espiritual - e criaram a Associação Universitária de Monsenhor Gil, cujas primeiras atividades se voltaram para reviver a figura do poeta Zito Batista, e o fizeram de maneira exemplar, num debate sobre a poesia do homenageado, e deram à luz plaqueta em que se reuniram comentários de boa cepa de talentosos estudantes conterrâneos do centenariante - crítica literária do melhor conceito. J. Cardoso do Nascimento Júnior, Mário Medeiros, Joaquim Campelo Filho, Carlos Alberto Pessoa prestaram serviços valiosos à literatura piauiense, em análise e interpretação de uma obra vasta e complexa, ao mesmo tempo em que viveram instantes de glória do infeliz e angustiado varejador.

Raras instituições piauienses se lembraram de Zito Batista. Sabemos de duas: a Academia Piauiense de Letras, que  divulgou a vida e a obra do poeta pelo jornalismo, e a promissora Associação Universitária de Monsenhor Gil, com o apoio e a solidariedade da Secretaria de Educação e da casa de Lucídio Freitas.

A novela nacional pelas têves não permitem que se conheçam a inteligência e o poder criativo dos piauienses mortos. Melhor a educação para a ignorância aprendendo-se que Édipo-rei não passou de reles contrabandista de pedras preciosas.

Graças a Deus Sófocles está vivo - porque os mortos, na sentença de Grieco, não raro mais vivos que os vivos, como a contribuição dos jovens de Monsenhor Gil provou.


A. Tito Filho, 06/11/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CELSO O POBREZINHO

Era em 1936. Centenário do jornalista Davi Caldas. O governador Leônidas Melo realizou grandes festas comemorativas. Solenidades literárias, edição extraordinária de jornais. Muita despesa dos cofres públicos. Petrônio Portella, no seu tempo governamental, instituiu concursos, deu dinheiro para alguns grupos teatrais, publicou livros de piauienses. Alberto Silva, no primeiro Governo, editou cerca de quarenta obras, sob orientação da Academia Piauiense de Letras e esta nem o seu presidente, pelo relevante e estafante serviço, nada cobraram. Dirceu Arcoverde mandou-me no rumo de Recife, deu-me passagem e alguns níqueis para hospedagem. Acompanhei a confecção dos painéis de poesias de Da Costa e Silva, durante cinco dias, enfrentando chuva, nas oficinas desconfortáveis de Bórsoi, os painéis para a praça do mesmo nome, em Teresina. Nenhum tostão tive de pagamento. A Casa de Lucídio Freitas tem prestado valiosa colaboração ao Piauí, a Teresina, a organismos oficiais, a entidades particularidades, educandários, estudantes, jovens escritores - e jamais cobrou, ou o autor destas linhas, um centavo de quem quer que seja, Lucídio Portella, à frente da administração do Estado, promoveu comemorações dos centenários de Matias Olímpio e Pedro Brito. Autorizou elevadas despesas com solenidades, recepções, livros, sob orientação da APL. O Governador Hugo Napoleão viveu um ano inteiro festejando o primeiro centenário de Da Costa e Silva. Pagou jornais e jornalistas. Fez reuniões em Brasília. Conferências literárias em Teresina, com vinda de diplomata de Londres. Realizou caríssimas edições especiais de revistas, obra completa do poeta, em trabalho de luxo, confeccionado na Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. Deram-se permanentes festejos em Amarante, - milhões e milhões de cruzeiros gastos em programas comemorativos. Até camisa com o retrato do grande escritor foi distribuída. Esses governadores cumpriram o dever sagrado de prestigiar os mortos queridos do Piauí, que projetaram a terra nos domínios da inteligência. Aplaudiram-nos todos os setores conscientes da sociedade. Dias de beleza espiritual. Recordaram-se as memórias de conterrâneos ilustres. Chegou este ano de 1987 a vez de Celso Pinheiro, piauiense, uma das maiores vozes da poesia nacional, que, vivo, estaria completando o primeiro centenário de nascimento. Quase nada se fez em sua homenagem. Um recitativo aqui, um discursozinho ali. Ninguém lhe deu projeção. A neta culta, Lina Celso, com apoio do Projeto Petrônio Portella, entregará brevemente ao público um livro do poeta, dos mais de vinte títulos que ele organizou. A Academia Piauiense de Letras, em sessão, fez o elogio de Celso e lembrou-lhe a obra aureolada. E para conhecimento da coletividade distribuiu quinze linhas datilografadas sobre o imenso morto, com bilhetes de pedidos de divulgação dirigidos a Octávio Miranda, Elvira Raulino, Mário Soares, Paulo Henrique, Edmilson Caminha Júnior, Luiz Alberto Falcão, Dídimo de Castro, Padre Tony e à Secretaria de Comunicação do Governo do Estado. Pedi a divulgação, pois a Academia não possui dinheiro para pagar publicações jornalísticas. Tem subvenção de vinte mil cruzados mensais, quantia que mal paga material de expediente, material de limpeza, correspondência no correio e outros gastos mínimos, e anualmente o MEC lhe oferece uma esmola - este ano de 1987 apenas vinte e oito mil cruzados. Não foi possível promover comemorações significativas. A Casa de Lucídio Freitas não dispõe de recursos. A própria sede em que funciona constitui presente do ex-governador Hugo Napoleão, que ainda lhe deu máquinas de escrever e mobiliário, - ato da maior grandeza espiritual. Pobrezinho do Celso Pinheiro. Poeta imenso, viveu amargurado, tuberculoso, rico apenas de cabeça e coração - continua a padecer o esquecimento e a injustiça dos homens perversos.


A. Tito Filho, 06/12/1987, Jornal O Dia

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.

Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.

A. Tito Filho, 01/12/1987, Jornal O Dia  

segunda-feira, 11 de abril de 2011

AS LIÇÕES DO PASTOR

Ano de 1956. Teresina vive constantes e graves problemas humanos e urbanísticos, sem esgotos, sem asfalto, água canalizada e energia elétrica escassas, mendicância generalizada, modesta rede hospitalar, moradias subumanas nos bairros sem transporte, infância desvalida, desnutrição, fisionomias envelhecidas pela fome. Pauperismo no Piauí todo, excetuada pequena parcela de povo. Subemprego e desemprego.

Pálida assistência aos abandonados começou no governo Leônidas Melo, na capital. Pouco se cuidava das tarefas assistenciais, exceto as de caráter paternalista, de esmola em dinheiro, sopas dos pobres, roupas velhas.

Existem ainda aspectos desafiadores, mas de vez em quando surgem espíritos fortes que os enfrentam e plantam as sementes de uma sociedade mais justa, para participação de todos nos bens primários da vida, como pregava João XXIII.

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Junho de 1956, Teresina acolhia novo arcebispo, vindo do Bispado de Petrolina, em Pernambuco, - Dom Avelar Brandão Vilela, alagoano de nascimento. No ano anterior havia morrido Dom Severino Vieira de Melo, pastor rigoroso, intransigente nas decisões e na defesa dos princípios morais a que os piauienses deveriam guardar obediência. Tão severo que recusou participação nas festas do 1º Centenário de Teresina porque do programa constava a exibição da artista Elvira Pagã, projetada pela nudez em público. Os mentores dos festejos recuaram e desistiram de contratá-la.

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Taderzinha, Dom Avelar mereceu homenagem dos teresinenses, em calorosa recepção. Orador de extraordinários recursos, o arcebispo disse que vinha pregar o Evangelho, cuidar das almas, confortá-las, mas pretendia humanizar a vida, assumindo as responsabilidades de dar assistência aos que desta necessitassem.

Aceitou os desafios. Lutou com os instrumentos da inteligência, da coragem e da fé. Instituiu a Faculdade Católica de Filosofia, para melhorar o magistério do ensino secundário, - obra educacional significativa; promoveu o 1º Congresso Eucarístico do Piauí, definindo diretrizes para o homem cristão; fundou a Rádio Pioneira, instrumento de comunicação permanente da Arquidiocese com a coletividade.

Não esqueceu a promessa de humanizar - e surgiu a Ação Social Arquidiocesana (ASA) - que se projetou nos bairros pobres e sofredores, por intermédio de centros de trabalho coletivo, de clubes de mães, de núcleos profissionalizantes. Os exemplos do pastor frutificaram: o governo dava os primeiros passos sérios na ajuda social aos desvalidos.

Indiferente aos resmungos e aos insultos de interesseiros sem entranhas, advogou a propriedade da terra para os que nela trabalham e labutam.

Combateu o bom combate. Consciências adormecidas pela rotina despertaram. Paciente, calmo, Dom Avelar distribuiu conselhos úteis e gestos de bondade. Suavizou padecimentos.

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Em maio de 1.971, depois de quase quinze anos a serviço do Criador e da sua criatura, o Pastor amigo e sincero se despediu do Piauí, para o cardinalato na Bahia.

A Casa de Lucídio Freitas, que ele dignifica, junto ao Clero, lhe prestou as homenagens do agradecimento e da saudade, na palavra do presidente da instituição, relembrando as lições do Pastor verdadeiro. No agradecimento, afirmou o novo cardeal, que, ainda distante, na sede do seu novo pastoreio, continuava, anos fora, solidário com os piauienses, nos instantes felizes como na hora dos sacrifícios.

Nos 50 anos de sacerdócio de Dom Avelar, que se comemoram com entusiasmo, a Academia Piauiense de Letras relembra as lutas do seu titular ilustre, em benefício da dignidade do homem piauiense.

A. Tito Filho, 08/12/1985, Jornal O Dia