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sexta-feira, 24 de junho de 2011

A INDEPENDÊNCIA

Contam que o gorducho Dom João VI, ao deixar o Rio de Janeiro, pediu que o filho Pedro se tornasse o novo rei brasileiro. De Lisboa, porém, despachava o cabo-de-guerra Fidié para o comando das armas em Oeiras, a antiga capital, ordenando-lhe que nestes piauís se mantivesse, a qualquer custo.

Portugal queria o Brasil-Português, constituído de Piauí, Maranhão e Pará. Era a riqueza em gado bovino, sustentadora da côrte e das colônias africanas.

A 19 de outubro de 1822, em Parnaíba, norte da capitania, alguns patriotas, liderados por João Cândido e Simplício Dias, levantaram, segundo Pereira da Costa, o grito da independência e aclamaram Pedro imperador do Brasil. A notícia chegou a Oeiras, sede do governo português, e logo o comandante Fidié seguiu com a tropa armada, uns mil soldados, para sufocar o gesto parnaibano. Os rebeldes, sabedores da aproximação dos lusos, abandonaram a vila e refugiaram-se no Ceará. Não houve combate. Erro imperdoável teria praticado o comandante português, ao abandonar a capital do Piauí.

Aproveitando-se da ausência de Fidié e seus comandantes, Manuel de Sousa Martins, futuro visconde da Parnaíba, a 24 de janeiro de 1823, manhãzinha, proclamou, em Oeiras,a  independência e estabeleceu novo governo com a destituição das autoridades lusitanas.

Até 1937, os piauienses comemoravam a independência a 24 de janeiro. Em 1923, uma semana de solenidades homenageou o primeiro centenário do gesto de Sousa Martins. O historiador Pereira da Costa registrou que, a 31.8.1859, "Lei provincial determina no artigo 24 que o dia 24 de janeiro, aniversário da adesão do Piauí à independência nacional, é feriado em todas as repartições provinciais".

Em Parnaíba, Fidié aquartelou-se e treinou a tropa. Mas era necessário retornar a Oeiras e retomar o governo. A 1º de março de 1823, com mais de mil homens, o chefe marcha (no) rumo de Piracuruca (PI). Deveria alcançar Campo Maior, aonde chegou às margens do rio Jenipapo a 13 do mesmo mês. Aguardavam-no piauienses e outros brasileiros, perto de dois mil homens, comandados por Chaves, Nereu e Alecrim. Vaqueiros e roceiros ocultaram-se no leito seco do rio, entre os arbustos. Deram-se os choques iniciais entre os adversários. Grande perda de vida dos independentes, armados de velhas espingardas, facões, machados e foices. O combate durou das 9 da manhã às 2 da tarde, sob sol escaldante. Vencidos os brasileiros, Fidié não teve condições de perseguí-los. Registra-se que morreram poucos portugueses e cerca de 400 ou mais do outro lado.

Acampando para descanso nos arredores de Campo Maior, exausto, deu-se o furto de armas e munições dos portugueses. Iniciaram-se tropelias contra os vitoriosos. O comandante resolveu seguir para o Estanhado (União-PI) e daí para Caxias (MA), onde, cercado, resistiu, mas acabou vencido e prisioneiro.

Jenipapo foi carnificina pavorosa. A luta no Piauí decidiria a unidade nacional. Achamos, pois, que a verdadeira independência di Brasil se verificou a 13.03.1823, às margens do rio Jenipapo, perto da vila piauiense de Campo Maior. Salvo melhor juízo.

Três as fases do processo político da independência: o gesto inicial e pioneiro dos parnaibanos, depois a habilidade do dono de gado e vaqueiro chamado Manuel de Sousa Martins e por fim a consolidação destes fatos na sangrenta batalha do Jenipapo, a 13.03.1823 - data da verdadeira emancipação do Brasil, com a afirmação da unidade nacional.


A. Tito Filho, 21/10/1987, Jornal O Dia

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O PIAUÍ E A REPÚBLICA

David Caldas, nascido na terra piauiense de Barras, seria chamado o profeta da República, pois muitos anos antes da proclamação do novo regime brasileiro, esse combativo homem de imprensa, ardoroso antimonarquista, admitiu que o advento republicano se daria justamente no ano em que ocorreu, em 1889. Poucos recordam o bravo jornalista, desassombrado que muito sofreu pela virtude de ter e de defender idéias. Sabe-se que os acontecimentos da história sempre promanam de sérias causas econômicas e dos erros imperdoáveis que os próprios homens cometem. Não houvesse o gesto magnânimo de Isabel e o Trono teria permanecido no Brasil. A máquina aboliu a escravatura e a abolição desta retirou da família imperial brasileira o apoio dos latifundiários e a monarquia ruiu como um castelo de cartas. Mas existem as causas primeiras e as derradeiras e, no meio destas últimas, os acontecimentos de precipitação. Anfrísio Fialho, ferrenho republicano, nascido no Piauí, que o elegeu deputado federal para participar da primeira Constituinte, escreveu "História da Fundação da República no Brasil", em cuja página 29 escreveu: "O coronel Cunha Matos, que havia sido encarregado de inspecionar uma companhia de infantaria estacionada numa das províncias do império, no relatório que apresentou ao ministro da Guerra, fez graves acusações ao comando daquela companhia, o qual era amigo do peito de um deputado". E logo a seguir acrescentou: "Tomando as dores pelo comandante da companhia, o deputado, em vez de limitar-se a defender o seu inimigo, injuria atrozmente, do alto da tribuna parlamentar, ao coronel Cunha Matos, chamando-o de traidor e covarde".

Anfrísio Fialho, republicano, escondeu o nome do Simplício Coelho de Resende, incondicional partidário de Pedro II, e não esclareceu convenientemente os fatos. Simplício nasceu em Piripiri, município piauiense. Jornalista impetuoso e valente. Um dos empolgantes episódios de sua vida pública está no envolvimento da chamada questão militar, formada de circunstâncias diversas relacionadas com a disciplina. Pedro Calmon atribuiu ao parlamentar do Piauí participação direta como fator relevante na fundação da República. Realmente, Simplício rebateu as acusações de Cunha Matos contra o capitão Pedro José de Lima, que teria praticado supostas irregularidades no comando de uma Companhia de Infantaria no Piauí. O parlamentar atacou violentamente o denunciante, transformando-se o assunto em grave caso político. Cunha Matos defendeu-se pela imprensa. Foi preso. Várias ocorrências se verificaram com a participação de civis e militares. Precipitou-se a proclamação da República. Recorde-se que Simplício Coelho de Resende era de caráter forte e extremamente corajoso de atitudes.


A. Tito Filho, 21/11/1987, Jornal O Dia

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O VELHO GUERREIRO

Era comum naquela época que os piauienses andassem por muitos lugares, para estudos ou trabalho. Uma temporada aqui, outra acolá. As esposas davam à luz meninos de origem piauiense noutras localidades. Assim, pessoas nossas nasceram em paisagens brasileiras próximas ou distantes, como Ernesto Batista, no Recife, Robert de Carvalho, em Caxias, e Eurípedes de Aguiar, em Matões, estas duas últimas no Maranhão. Nasceria em Barra do Rio Grande, na Bahia, Salmon Lustosa, uma vez que corrente, onde viviam os pais, não possuía médico.

Dos citados, Eurípedes de Aguiar governou o Piauí, em período de vacas magras, de 1916 a 1920, depois de uma seca danada, que a história registrou, a de 15, de cujas misérias Rachel de Queiroz fez romance famoso e real. O objetivo do governante esteve no saneamento das finanças. E conseguiu. Passou a administração, sem nada dever, inclusive ao funcionalismo.

Foi Eurípedes prefeito e parlamentar federal, como deputado e senador. Médico, obteve prêmio de viagem à Europa. Com a vitoriosa revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao Palácio do Catete, em que, numa manhã sem graça, se matou de bala no peito, o piauiense do Maranhão deixou o tablado político e recolheu-se ao lar. Farmacêutico e doutor em Medicina, trabalhava nas duas profissões, sem querer paga dos serviços.

Conhecia-o de nome. Quando rebentou a liberdade de imprensa, em 1945, depois de violenta ditadura. Eurípedes assumiu postura de vanguarda na direção do movimento oposicionista ao Governo de Leônidas Melo. Mantinha coluna assinada no Jornal "O Piauí", que circulava nos dias de quinta-feira e domingo. Não aceitou candidatura a nenhum cargo eletivo, porque - explicava - seria eleito. Na verdade, as oposições elegeram os senadores, a maioria dos deputados federais e o brigadeiro Eduardo Gomes venceu para a Presidência da República, embora na soma geral dos votos nacionais a vitória coubesse ao general Dutra.

Eurípedes não esmoreceu. Com os companheiros, sustentou mais forte a luta. Tinha firme trincheira no jornal. Tornaram-se popularíssimos os seus comentários, numa linguagem ao alcance de todas as inteligências. Discípulo dos mestres franceses da ironia e do remoque, o articulista aplaudido conhecia a fraqueza interior dos adversários e os expunha ao riso coletivo, tanto os mitos fabricados pela propaganda estatal, como os nobres de fancaria. Pôs a nu sem injurias ou perversidade políticos fortes, valido das armas do sarcasmo e da galhofa - justamente aquele sal do espírito que eternizou o insuperável Rabelais.

Vindo do Rio de Janeiro, depois de cinco longos anos de saudade do amorável xodó de nome Teresina, conheci pessoalmente Eurípedes de Aguiar no dia de meu regresso, manhãzinha. Cheguei numa gaiola do Parnaíba, depois de longa viagem. Era 19 de janeiro de 1947, dia em que o povo comparecia nas urnas para eleger governador Rocha Furtado, da antiga e extinta UDN, mesmo dia em que o chefão corajoso e comandante da vitória estava de aniversário natalício. Andava ele aí por perto dos setenta janeiros. Da beira do Parnaíba caminhei até a casa da avenida Antonino Freire - e ali abracei o velho guerreiro - herói autentico do seu tempo, sempre de amplo sorriso na fisionomia tranqüila. Pois foi aí nesse prédio que guarda o espírito de um homem digno, sob os cuidados do amor filial de Genuzinha Aguiar Correia, que se deu o lançamento do livro "O Rio Mágico", de Renato Castelo Branco, nos últimos dias do falecido mês de novembro de 1987, Depois eu conto.


A. Tito Filho, 20/12/1987, Jornal O Dia

terça-feira, 21 de junho de 2011

FUTEBOL

Em 1960, fui chefão do futebol no Piauí, interventor federal na Federação Piauiense de Futebol, armado de poderes ditatoriais. Havia em Teresina uns dez clubes, fora os do interior, Campo Maior e Floriano, se a memória está lembrada. Jogava-se no estádio Lindolfo Monteiro. Certos jogos não rendiam ao menos para o pagamento dos garotos apanhadores da bola saída de campo, os gandulas. Deliberei reduzir as agremiações teresinenses a seis, escolhendo aquelas da simpatia pública. E assim fiz. Os donos dos grêmios cassados, a bem do esporte, muito me ameaçaram de morte, mas nada me aconteceu. Ainda não chegara o tempo dessas vendetas, tão comuns neste fim de século.

Os clubes de futebol organizados recebiam subvenção mais ou menos gorda, anualmente, do Governo Federal, e nisto residia o motivo de entidades de todos os feitios, até de aleijados. E Teresina tem sido, ao longo do tempo assim: quando se inventa uma modalidade de ganhar dinheiro, dezenas e dezenas de idênticos estabelecimentos povoam a capital. Os proprietários de funerárias disputam de revólver em punho defunto pobre e rico. Há churrascarias por todos os cantos, como santo e negro na Bahia. Uma verdadeira praga de butiques. Motel dá na canela. Em cada esquina uma farmácia. Botecos são centenas.

Em 1918 fundou-se o primeiro clube de futebol na capital do Piauí, com o pomposo nome de TERESINENSE ATLÉTICO CLUBE, justamente o introdutor desse jogo entre nós - e como só existia uma entidade deu-se a disputa do primeiro jogo entre dois times da mesma sociedade esportiva, um chamado CORISCO e o outro PALMEIRAS, aquele constituído dos craques André (goleiro), Bastos e Abreu (beques), Wady, Artur e Curi (médios) e os atacantes Ferro, Mundico, Lourival, Álvaro e Sady. A outra formava-se com os jogadores Gonçalo, Jinvinha e Viana, Paulo, Emílio e Rubim, Medeiros, Pompom, Martins, Henrique e Gerson, - com a mesma distribuição de posições do anterior. Desses 22 heróis não sei dizer se existe algum vivo nem me lembro dos que cheguei a conhecer, salvo um dos beques do CORISCO, José Auto de Abreu, falecido antes dos anos 80, intelectual e político.

Depois da fundação do Teresinense Atlético Clube, surgiram, entre 1918 e 1920, mais as seguintes organizações futebolísticas:

  • Militar Esporte
  • Fundição Esporte Clube
  • Tipográfico Esporte Clube
  • Clube Republicano de Futebol
  • Artífice Esporte Clube
  • América Esporte Clube
  • Piauí Esporte Clube
  • Comércio Esporte Clube
  • Belga Esporte Clube
e outros talvez cujos registros não me foi possível encontrar.

Quanta cousa em Teresina padece a saturação, naturalmente. A cidade torna-se farta, cheia de cousas do mesmo - clubes de alta-roda para exibição de vestidos das madamas, com recepções regadas a uísque, bolinhos para arrotos escondidos e cigarros de matar lentamente; pontos de táxi; jornais e revistas sebosos da Praça Pedro II; teatro de qualquer jeito no velho 4 de Setembro; estupro de garotas já bem sovadas de sexo e mais que se veja e anote para a monotonia da vida sem grandeza.

O futebol, como o carnaval, chegará ao ponto de saturação, como eu escrevi nos idos de 1975.


A. Tito Filho, 23/12/1987, Jornal O Dia

domingo, 19 de junho de 2011

SETENTA ANOS

A 4 de agosto de 1901 - conta João Pinheiro - reuniram-se, em casa do próprio memorialista, rua da Glória, Higino Cunha, Arquelau Mendes, Luís Evandro Teixeira, Domingos Monteiro, João Pinheiro, Antonino Freire, Clodoaldo Freitas, Manoel Lopes Correia Lima, João José Pinheiro e Fócion Caldas, e criaram a Academia Piauiense, para constante trabalho em favor do primeiro domingo seguinte, o que não houve. A iniciativa faleceu no nascedouro. Surgiram outras associações literárias, como a "Sociedade José Coriolano", os grêmios "Esperança", "David Caldas", e o primeiro “Cenáculo Piauiense de Letras”, em 1913, nascido morto.

Fundaram-se seguidamente o Congresso Estadual de Letras (1914), a Academia Piauiense de Letras (1917), a Arcádia dos Novos (1918), o Cenáculo Piauiense de Letras, pela segunda vez (1927), a Associação dos Moços Teresinenses (1932) e o Clube dos Novos (1946), este sob o comando de M. Paulo Nunes, para falar das entidades criadas antes do primeiro centenário de Teresina, todas de vida curta, com exceção da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, - e este não morreu por virtude dos teimosos e grandes esforços de Josias Carneiro da Silva.

A idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras coube a Lucídio Freitas, jovem poeta muito admirado. Deu-se o episodio as nove da manha de 30-12/1917, no Salão nobre do Conselho Municipal, Praça Marechal Deodoro, prédio em que durante muitos anos funcionou a Intendência e de 1936 em diante a Prefeitura. Fundadores, por ordem do registro da ata respectiva: Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas, Celso Pinheiro e Lucídio Freitas, que foi presidente da reunião.

De 1917 até hoje governaram o sodalício os presidentes Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Matias Olímpio, Martins Napoleão, Álvaro Ferreira, Clidenor Freitas Santos, Simplício Mendes. Desde 1971, vem sendo conduzida humildemente pelo autor destas notas.

A instituição manteve-se fiel a Lucídio Freitas e aos seus nove companheiros fundadores. Funcionou em casas particulares, em prédios oficiais ou alugados pelo governo, viveu sem tostão, aqui e ali auxiliada por governantes decentes que lhe publicavam a revista e obras literárias dos acadêmicos - mas nunca esmoreceu. Possui hoje a sede própria e sustenta-se de pequenas rendas que lhe proporcionam órgãos do governo, e prossegue, com dignidade, o modesto trabalho de bem servir, sem que jamais tenha cobrado de quem quer que seja pagamento de serviços prestados, pois tem como dever precípuo a cooperação com a vida cultural da terra.

Setenta anos está inteirando a Casa de Lucídio Freitas neste dia 30 de dezembro de 1987. Orgulho-me dela e dos companheiros que me ajudam a conduzi-la, no respeito permanente à memória dos que a fizeram e não permitiriam que o ideal morresse - o ideal de Lucídio, tão grande que continua vivo e inspirador.


A. Tito Filho, 30/12/1987, Jornal O Dia

AINDA ODILON

Nos longínquos fins dos anos setecentos o Piauí enfrentava problemas angustiantes de tardio povoamento, dificuldades de transporte - sem agricultura e sem escolas. Não se esqueça a perversa matança da indiada, aos magotes. João do Rego Castelo Branco liquidava todo tipo de índio: feto, recém-nascido, criança, adolescente, moços, maduros e velhos. As estrepolias sangrentas desse exímio degolador ingressaram na história e na literatura. Cumpria ordens dos conquistadores da terra e dos governantes. E cumpria-as sem um pitoco de remorso, alegre sempre. Em Odilon Nunes se admira a paciência na busca do documento - documento que ele confere, examina, estuda e dele retira a verdade, para a narrativa segura e a análise esclarecedora. Narra o mestre os episódios da independência: Parnaíba, Oeiras e Jenipapo. E lembra que no começo do século XIX o ouro, o diamante e o açúcar estavam em decadência. O Norte representava dois terços da atividade útil do Brasil. Se Fidié se mantivesse no Piauí, como queria D. João VI, Portugal dominaria o Norte e evitaria a vitória dos baianos, cortando-lhes o fornecimento de carne. Maranhão, Piauí e Pará formariam o Brasil Português, subordinado a Lisboa. Adiante Odilon estuda as causas da Balaiada. Para ele, essa guerra violenta no Maranhão e Piauí resultou de um choque de culturas. As origens próximas da luta estavam na prática perniciosa do recrutamento feito pelo Exército, fazendo que pobres cablocos entrassem para o serviço das armas, longe da terra e da família. As causas sérias eram outras: as condições de ordem econômica geradoras de permanente miséria coletiva; a terra, confiada a poucos, àqueles que representavam o regime político e que viviam de explorar o homem do interior; a fome e a estrutura social, o brasileiro esquecido e abandonado. Finalmente realizados estudos sociais e políticos da maior relevância: as lutas partidárias, o processo educacional, o regime de trabalho, o crime e as suas causas, a mudança de capital de Oeiras para Teresina, a guerra do Paraguai, a liberdade dos escravos, a colonização e aspectos culturais do Piauí. Pena que o ilustrado e honesto historiador esbarre na República. De tudo se deduz que no fim do século XIX o Piauí parecia esmorecer: economia de subsistência, fontes de riqueza estagnadas, comércio e lavoura em grandes dificuldades, decadências da pecuária, tristes condições educacionais e culturais.

A. Tito Filho, 14/11/1987, Jornal O Dia 

MESTRE ODILON

AS PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ, de Odilon Nunes, em 4 volumes, revelam a saga piauiense, dos primeiros tempos até o fim do período provincial, uma saga com gosto e sabor de tragédia.

Do volume inicial constam a pré-história, os primeiros contatos com a terra, os primórdios da colonização e dos currais, a ausência de disciplina legítima e os governos que deram começo à vida política. A narrativa abrange os índios, a matança destes, a sangueira, o genocídio, as lutas sem fim, as sesmarias, o Parnaíba, riozão famoso, o território imenso de população escassa. Uma vez escrevi que a história do Piauí, no princípio, está no pânico e no vácuo. Dias perigosos: o pânico. A volúpia mortífera das desgraças do meio: o vácuo. Odilon mostra e interpreta isto tudo. Neste ponto o seu extraordinário valor: análise dos episódios, causas e consequências. Domingos Afonso Mafrense e o xará Domingos Jorge Velho - sertanista e bandeirante - penetraram o Piauí com seus troços de gente, e colonizaram terras, senhores de sesmos e de latifúndios, de gado bovino de outras paragens. Sobre o primeiro não há dúvida. Com o outro, o paulista, baita de homem severo e truculento, indicam alguns historiadores e dizem que não passa de lorota a sua vinda ao Piauí, donde saiu para a matança dos Palmares, nas Alagoas.

Odilon estudou detidamente o fato em mais de um trabalho, anotou referencias a bandeiras paulistas que agiam nos sertões do São Francisco. Fim do século XVII. Admirável a ação dos catequistas. O Piauí torna-se cenário histórico empolgante. Já o bandeirante transmuda-se em curraleiro, encourado, nômade, solitário, individualista - são ensinamentos de Odilon. A riqueza era o gado e da rês se aproveitava tudo, a carne, os ossos, o tutano, bofes, cascos, couro, chifres, fezes, até o membro genital enorme do bovino; na panela, no cornimboque, nas liteiras, no gibão, nos arreios, em certos vasilhames de viagem, nas portas, nas calçadas. Muitos falaram dessa civilização do couro.

Sertão desconhecido, ignoto, temeroso. Dizem até que a famosa Casa da Torre, no litoral da Bahia, tinha duas faces, uma para o mar, vigiando piratas e inimigos, outra para as terras de perigos sempre fartos.

Até a independência, a história do Piauí se resume quase na história da pecuária. Bois, vacas, garrotes e bezerros apinhavam os lugares. Cada vez mais cresciam os rebanhos sem mercados. O vacum representava a moeda, o dinheiro. Inexistia patrão. O vaqueiro não era empregado, mas sócio nas reses, e escreveu páginas inesquecíveis na vida piauiense.


A. Tito Filho, 13/11/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 11 de abril de 2011

AS LIÇÕES DO PASTOR

Ano de 1956. Teresina vive constantes e graves problemas humanos e urbanísticos, sem esgotos, sem asfalto, água canalizada e energia elétrica escassas, mendicância generalizada, modesta rede hospitalar, moradias subumanas nos bairros sem transporte, infância desvalida, desnutrição, fisionomias envelhecidas pela fome. Pauperismo no Piauí todo, excetuada pequena parcela de povo. Subemprego e desemprego.

Pálida assistência aos abandonados começou no governo Leônidas Melo, na capital. Pouco se cuidava das tarefas assistenciais, exceto as de caráter paternalista, de esmola em dinheiro, sopas dos pobres, roupas velhas.

Existem ainda aspectos desafiadores, mas de vez em quando surgem espíritos fortes que os enfrentam e plantam as sementes de uma sociedade mais justa, para participação de todos nos bens primários da vida, como pregava João XXIII.

*   *   *

Junho de 1956, Teresina acolhia novo arcebispo, vindo do Bispado de Petrolina, em Pernambuco, - Dom Avelar Brandão Vilela, alagoano de nascimento. No ano anterior havia morrido Dom Severino Vieira de Melo, pastor rigoroso, intransigente nas decisões e na defesa dos princípios morais a que os piauienses deveriam guardar obediência. Tão severo que recusou participação nas festas do 1º Centenário de Teresina porque do programa constava a exibição da artista Elvira Pagã, projetada pela nudez em público. Os mentores dos festejos recuaram e desistiram de contratá-la.

*   *   *

Taderzinha, Dom Avelar mereceu homenagem dos teresinenses, em calorosa recepção. Orador de extraordinários recursos, o arcebispo disse que vinha pregar o Evangelho, cuidar das almas, confortá-las, mas pretendia humanizar a vida, assumindo as responsabilidades de dar assistência aos que desta necessitassem.

Aceitou os desafios. Lutou com os instrumentos da inteligência, da coragem e da fé. Instituiu a Faculdade Católica de Filosofia, para melhorar o magistério do ensino secundário, - obra educacional significativa; promoveu o 1º Congresso Eucarístico do Piauí, definindo diretrizes para o homem cristão; fundou a Rádio Pioneira, instrumento de comunicação permanente da Arquidiocese com a coletividade.

Não esqueceu a promessa de humanizar - e surgiu a Ação Social Arquidiocesana (ASA) - que se projetou nos bairros pobres e sofredores, por intermédio de centros de trabalho coletivo, de clubes de mães, de núcleos profissionalizantes. Os exemplos do pastor frutificaram: o governo dava os primeiros passos sérios na ajuda social aos desvalidos.

Indiferente aos resmungos e aos insultos de interesseiros sem entranhas, advogou a propriedade da terra para os que nela trabalham e labutam.

Combateu o bom combate. Consciências adormecidas pela rotina despertaram. Paciente, calmo, Dom Avelar distribuiu conselhos úteis e gestos de bondade. Suavizou padecimentos.

*   *   *

Em maio de 1.971, depois de quase quinze anos a serviço do Criador e da sua criatura, o Pastor amigo e sincero se despediu do Piauí, para o cardinalato na Bahia.

A Casa de Lucídio Freitas, que ele dignifica, junto ao Clero, lhe prestou as homenagens do agradecimento e da saudade, na palavra do presidente da instituição, relembrando as lições do Pastor verdadeiro. No agradecimento, afirmou o novo cardeal, que, ainda distante, na sede do seu novo pastoreio, continuava, anos fora, solidário com os piauienses, nos instantes felizes como na hora dos sacrifícios.

Nos 50 anos de sacerdócio de Dom Avelar, que se comemoram com entusiasmo, a Academia Piauiense de Letras relembra as lutas do seu titular ilustre, em benefício da dignidade do homem piauiense.

A. Tito Filho, 08/12/1985, Jornal O Dia