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terça-feira, 21 de junho de 2011

O REGIME DOS INGLESES

Nos dias de domingo costumo reler livros saudáveis, numa espécie de fuga à rotina. Muito rica de ensinamento a releitura que a gente faz de autores lidos vinte ou mais anos atrás, agora compreendidos na plenitude do que eles pretenderam. Em Dante, a denúncia da corrupção dos maus governos e a maldade do homem no século XIII. Camões, no poema célebre, põe na dependência do dinheiro a amizade, o amor e a virtude. A gente de vez em quando releia os conselhos que Cervantes oferece aos poderosos da terra. Shakespeare revela a violência nos seus aspectos brutais, mas no assassinato de Brutus, pois este queria a liberdade e ajudava o extermínio de um ditador. O aparatoso e o artificial sofreram o desdém permanente de Moliére. Na eternidade de Voltaire aprende-se a combater os privilégios. Byron quer uma sociedade socialista. As prostitutas tiveram a fraternal simpatia de Walt Whitman. E a ironia, o bom humor e o desencanto do muito citado e pouco lido Machado de Assis? Aprecio sempre novos contatos com esses homens de inteligência que enriqueceram a literatura dos povos com superior poder de observação e de interpretação da vida.

Neste último domingo de outubro, busquei as páginas de "Europa e Européus", do Padre Luciano Duarte, livro de muitas lições interessantes e oportunas a respeito de cenários humanos e belezas paisagísticas do Velho Continente. Visitou o sacerdote a Inglaterra e esclareceu que o país congraça o ferrenho tradicionalismo a uma visão dos problemas sociais no mundo de hoje, numa surpreendente situação social. Regime de liberdade. Inexistência de desempregados. Casas populares de bom gosto arquitetônico, de andar térreo e outro superior. Médicos pagos pelo governo. Tratamento sanitário e hospitalar gratuitos, bem assim dentário. Remédios de graça fornecidos pelos organismos oficiais.

Padre Luciano visitou a Europa de 1954 a 1957. Trinta anos passados a Inglaterra praticava, sem gritaria, a socialização dos bens da vida - e punha o rádio e a  televisão sob o controle do Estado, impedindo que esses poderosos instrumentos de publicidade estivessem a serviço de interesses egoísticos, de políticos ou grupos financeiros.

Como o governo inglês pode sustentar tantos benefícios, faz anos, incluindo o sistema educacional gratuito? Por via de um pesado regime de impostos, mas o peso - diz o bom do padre - recai sobre os ricos. A tabela dos tributos sobe gradativamente de conformidade com os lucros do cidadão. E a partir do lucro anual de cinco mil libras esterlinas, paga-se sobre o excedente nada menos de noventa e seis por cento. O inglês - escreve Luciano Duarte - "realiza no seu admirável país este regime social em que o Estado se empenha seriamente por uma melhor distribuição dos bens materiais, pára que haja realmente para todos as condições de existência e os bens da vida que Deus para todos criou, e não apenas para uma minoria privilegiada".

No Brasil, apenas os depauperados membros da classe média pagam Imposto de Renda, na fonte e no tempo fixado pelo ditatorial e sem contraste poder decisório do órgão dito competente. E ainda os pobretões se sujeitam ao pente-fino ameaçador. Rico ou de vencimentos bojudos - e ainda a constelação da esposa-secretária, da filha subsecretária - rico recebe devolução.

A pândega nacional começou em 1500, com os portugueses instituidores da raparigagem, do latifúndio e dos privilégios que o rei apoiava nas terras de Santa Cruz. Continua do mesmo jeito, e que ninguém mexa com gente importante.


A. Tito Filho, 30/10/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 20 de junho de 2011

GENTE CORAJOSA

Padre Joaquim Chaves escreveu que em 1875 só existia uma livraria em Teresina - a Livraria Econômica, na rua Paissandu, que vendia gravatas, leques, botinas, chapéus, lãs, chitas, vinhos, doces, biscoitos, queijos, inclusive livros, papel, pastas e objetos de fantasia. Assenta o bom historiador da cidade que nesse tempo as lojas eram verdadeiros bazares, de sortimento variadíssimo. No ano de 1917, quando se criou na Chapada do Corisco o jogo do bicho e se fundou a Academia Piauiense de Letras, vendiam livros quatro firmas: A. Carvalho e Companhia, Gomes Ferreira, João de Castro Lima, Leocádio Santos Irmão e Companhia. No estabelecimento de João de Castro Lima, que o povo chamava de Juca Feitosa, comprei, aos dez anos de idade, exemplares de Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Bernardo Guimarães, Joaquim Manoel de Macedo, Alencar e outros, brochuras empoeiradas, que se atiravam a velhas prateleiras de uma sala mal iluminada, escondida por trás do salão de vendas. Livro era objeto de categoria inferior, adquirido por gente sem que fazeres, desocupada, segundo se comentava. Na década de 30, M. A. Tote tinha loja na rua Coelho Rodrigues com venda de revistas do Rio de Janeiro, frequentadíssima. Vendiam-se também a coleção Terramarear, de muito agrado, narrativas de aventuras em terras misteriosas, as peripécias do Tarzan na selva africana, romances policiais de Edgar Wallace e a ficção científica de Julio Verne. Bons tempos, leitura proveitosa, suculenta, alimento de inteligência. Deixei Teresina para estudos noutras paisagens. Percorri novas pátrias, como a cearense e a carioca. Um dia regressei aos penates, à casa paterna, à terrinha onde a própria dor dói menos, como assentou o Juca Mulato.

Mais livreiros abnegados, corajosos, foram surgindo na cidade raquítica de leires, em que, ainda hoje, o empresário derrama pelo gogó escocês legitimo de custo acima do salário mínimo, mas se recusa a comprar um livro de autor piauiense. Surgiram o aplaudido Nilo Marinho, de dedicação exclusiva a esse mister cívico de distribuir idéias; o inteligente Nobre, descrente do poder público, perseverante, sincero, muito sortido de obras célebres e populares; o inquieto Cineas Santos, estudioso da vida e do homem que nela se agita, principalmente o teresinense; o incansável Pacheco, teimoso na arte de vender, solicito, rabo na rapadura de propagador de coleções ricas e úteis desde moço. Quem mais? Perdão pelas falhas de memória a respeito de gente do passado e do presente. Ao correr da pena, na pressa jornalística que atormenta, não se pode demorar à cata de registros da história dos livreiros de Teresina. Este rascunho tem o objetivo cujo gesto Clidenor Freitas Santos elogiou, o de dotar a cidade com elegante livraria, edifício de três pavimentos - Gilberto Mendes Farias, a quem, numa manhã de justiça, a Academia Piauiense de Letras fez louvação, estendendo a todos os que dedicaram aos teresinenses o carinho e a nobreza do trabalho pelo desenvolvimento intelectual da cidade.


A. Tito Filho, 28/11/1987, Jornal O Dia

CRIMONOLOGIA DAS MULTIDÕES

Elias de Oliveira e Silva nasceu na terra piauiense de Piripiri. Cultivou o soneto, quando moço - o soneto terno, voltado para a mulher nos seus atrativos físicos. Conheci-o em Fortaleza - elegante, cabeleira basta, olhos amortecidos de carcamano, inteligência ágil. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri. Argumentador seguro e culto. Palavra fácil, por vezes irônica. Grande estudioso de ciência penal. Escreveu valiosas obras jurídicas, discutindo impostos, intervenção federal nos Estados, crimes de incêndio e outras matérias. O livro que o colocou entre os mais conceituados no assunto chamou-se "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao direito criminal. Problema curioso e complexo o da multidão criminosa. Franceses e italianos lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil, mas lacunoso. O mais integro que conheço é o de Scipio Sighele, nomeado "A Multidão Criminosa".

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que outros escritores célebres procuraram revelar a psicologia das multidões, como d'Annunzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola mostrou-se real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

No meu entendimento, Sighele tem falhas que foram supridas por Elias. Certíssimo o conceito de multidão no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a Nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora provisoriamente, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, finalidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas ao inconsciente.

Esse recalque constitui o grande responsável pelo crime da multidão. Elias fez o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Certa vez observei que os recalques freudianos estão até nas manifestações dos campos de futebol, como nas arenas das touradas espanholas.

Grande jurista esse hoje esquecido Elias Oliveira e Silva. Talvez não o conheçam os universitários piauienses dos cursos jurídicos ministrados pela Universidade Federal do Piauí. O Piauí será sempre assim: despreza os talentosos homens de inteligência que aqui nasceram. Só os de fora prestam. Santo de casa não faz milagre.


A. Tito Filho, 15/12/1987, Jornal O Dia

domingo, 19 de junho de 2011

CELSO CENTENARIAMENTE

A 24 de novembro de 1877 nasceu, na pacata vila piauiense de Barras, Celso Pinheiro, que agora, vivo estivesse, festejaria o seu primeiro centenário de nascimento. Foi jornalista desde os tempos de estudante, poeta na mocidade sonhadora. Era filho do terceiro casamento de João José Pinheiro, também pai, em núpcias anteriores, de João Pinheiro e Breno Pinheiro, fulgurantes beletristas do tempo passado.

A quase totalidade da obra de Celso Pinheiro permaneceu inédita. Ele organizou-a em vida, distribuindo-a por 18 títulos, dois volumes de prosa e o restante de lídima poesia. Nas concepções figuram os pais, os irmãos, os filhos, a esposa, as moças tuberculosas de Teresina, a babá da meninice, bem assim os sofrimentos íntimos do poeta, a religiosidade, a beleza dos crepúsculos, as mulheres, os intelectuais. Em "Coroa de Espinhos" encontram-se os últimos poemas, os de uma semana antes de sua morte. Deixou uns cinco volumes de assuntos políticos, inclusive sátiras, justamente os que assinalam uma época de formidáveis paixões do partidarismo piauiense, de 1945 até a morte do poeta, em 1950.

As concepções literárias procedem das neuroses e dos sofrimentos dos seus autores. Celso não se desgarraria da observação. Desde cedo sofreu física e espiritualmente. Milionário de angustias intimas, alucinado de dor, pleno dos martírios que a vida lhe impõe, constrói os versos científicos de que abarrota gavetas e armários caseiros. Ele mesmo conta a sua história sem remédio em cada poema que colhe da alma em pranto.

Augusto dos Anjos realizou Eu com pedaços do coração maltratado. Deflorou e engravidou Maria, de humilde condição social. A mãe do poeta, senhora de engenho, mandou surrar a menina, que morre da surra - ela e o rebento da barriga. Augusto sofreu consequências violentas desse drama doméstico e tornou-se melancólico. Contou a tragédia no seu livro de tantas edições, acima referido. José Lima do Rego, conterrâneo do poeta, disse que ele escondia uma mágoa secreta, um rancor contra a própria mãe.

X  X  X

Em 1972, sustentei que Martins Napoleão, magnífico beletrista aceitava nos seus poemas a morte como processo de extermínio do sofrimento. Assim como Celso Pinheiro, foi Napoleão, no uso da palavra como conteúdo da poesia, como mensagem poética. Em Tomás Gonzaga, tudo se expressa nos adjetivos formoso, lindo. Duro é o adjetivo de Camões. Em Álvaro de Azevedo, pálido, lívio, frio. Napoleão se revela em essência pelo conceito: lágrima, pedra, sofrimento, amor, morte.

Celso Pinheiro consubstancia a angustia do homem martirizado pela crueldade da vida. Os versos revelam o seu verdadeiro psiquismo. Emoção a cada instante, e o vazio da alma, fazem dele um dos grandes poetas nacionais. A dor possessiva sublimou-o em comoventes criações poéticas - que não pertencem ao parnasianismo nem ao simbolismo, como disse Agripino Grieco. Penso que ele pretendeu, da forma que Horácio de Almeida sentiu em Augusto dos Anjos, ocultar o pensamento, num movimento de interpretar os profundos e martirizantes sentimentos íntimos e entregá-los ao mundo objetivo.


A. Tito Filho, 29/10/1987, Jornal O Dia

A CASA E O FANTASMA

Inteligente, de agradável palestra, educada, mulher de espírito forte, desde garotinha tem merecido palmas e admiração, como naquela noite maravilhosa em que participou de hora de arte no Theatro 4 de Setembro, com Lígia Martins, Maria Alice Rebelo, Ivone Bandeira e outras coleginhas do mesmo tope. Uma ocasião saiu fantasiada de francesa, num bonito acontecimento artístico de Teresina. As idéias e as atitudes fizeram-na, no percurso da vida, vereadora em São Luís, onde residia. Voltando a Teresina, aqui tem sido uma legítima representante do pai Eurípedes Clementino de Aguiar, o político e jornalista de grande conceito em todo o Piauí, e cuja casa residencial a filha Genuzinha Aguiar Correia transformou numa espécie de arquivo e museu daquele que conquistou mandatos eletivos diversos à custa de prestígio e liderança. Conheci Eurípedes, rico colecionador de apelidos - Urso Branco, Macacão de Matões, Gostosão da Vicença, - em 1947, no dia 19 de janeiro, em que ele fazia aniversário. Tornei-me freqüentador da mansão e lá de vez em quando me encantava para ouvir-lhe a boa prosa, bate-papo jovial, alegre, desopilante. Trabalhamos juntos: eu delegado, Eurípedes chefe de polícia.

O velho e seguro comandante tinha como riqueza importante: a afeição da mulher virtuosa e dos quatro filhos, dois dos quais varões.

Genuzinha guarda, com a vigilância dos dragões da lenda, a casa em que habitou uma das figuras de maior evidência no Piauí, até a década de 50, quando realizou a viagem final. Nas dependências do prédio se encontram cousas pessoais de Eurípedes, bengalas, chapéus, a escrivaninha, a cadeira de trabalho e muitos objetos de uso da família - móveis, louçaria, imagens de santos, vasos e decorações diversas, tudo disposto com engenho e carinho. A laboriosa produção jornalística de Eurípedes está nos arquivos sob o olhar vigilante do amor filial.

Foi aí na casa ilustre que recentemente se deu o lançamento do último livro de Renato Castelo Branco, "O Rio Mágico" - e Renato tem sido fazedor permanente de livros bons, sinceros, que enobrecem a literatura nacional: "A Química das Raças", "A Civilização do Couro", "Teodoro Bianca", "A Janela do Céu", "Candango, Blaiberg, Gagarin", "Pré-História Brasileira", "Tomei um Ita no Norte", "Os castelos Brancos d'Aquem e d'Além Mar", "A Conquista dos Sertões de Dentro", "Rio da Liberdade", "Senhores e Escravos", "O Planalto", "Amor e Angústia", "O Anticristo" - agora "O Rio Mágico", de força lírica e telúrica, reencontro do homem feito e perfeito com as suas origens de menino, adolescente e moço. Fui o apresentador do livro e não pude esquecer o ambiente sagrado em que me achava, com bocado de pessoas amáveis, para aplaudir o escritor - o ambiente de Eurípedes, pouco mais de 40 anos atrás sentado no salão maior, o sofá e as cadeiras dando para a porta da rua. Não consegui deixar de vê-lo dentro da memória, sorrisão constante, tipos adversários desfilando pela galhofeira.

Quando a festa chegou ao fim, e saí para o merecido repouso da choupana distante, depois do Poti, eu ainda via o fantasma de Eurípedes de Aguiar. Por dentro eu me perguntava qual a vitória da morte. Por que morrem os que são úteis a humanidade? Não tive resposta. O jeito estava em deixar com Genuzinha Aguiar Correia o fantasma sagrado do seu pai insubstituível.


A. Tito Filho, 24/12/1987, Jornal O Dia

JOÃO PINHEIRO

O conto foi pouco cultivado nas primeiras fases da Literatura piauiense. Parece que o primeiro em salientar-se nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco, diplomata, que serviu em Assunção do Paraguai e morreu na cidade francesa de Marselha. Em 1874 publicou "Um Figurino", uma só pequena estória, e dois anos depois entregava aos leitores "Contos a Esmo". Seguem-se diversos contistas como João da Cruz Monteiro ("O Major Irineu Gomes Coelho"), João Alfredo ("Contetos"), João Licínio de Miranda Barbosa ("Esmaltes"), Arquelau de Sousa Mendes, Júlio Emílio de Paiva Rosa ("As infelicidades de Tibério"). No século XX salientavam-se nesse tipo literário Amélia Bevilaqua e Clodoaldo Freitas. E mais perto de nós se encontram Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, Lilizinha Carvalho, Edgar Nogueira, Fontes Ibiapina, para que se citem apenas os que passaram desta para melhor vida. Mas no meio desses cumpre colocar o principal deles, o que deu expressão ao conto regional piauiense, homenageado, ano a ano, com um concurso de contos que leva o seu nome - João Pinheiro, falecido no Rio de Janeiro mais de quarenta anos passados. Dentista da profissão, chegou a criar e vender o "Pó Ideal", dentifrício aromático.

Mas seguiria outros rumos - o magistério, em que se tornou mestre acatado de português; e as atividades intelectuais, respeitável estudioso de nossa história e de nossa vida literária, além de poeta e contista. Entre outros trabalhos, publicou uma história da literatura piauiense, em que fixa as suas fases iniciais, autores respectivos, analisando-lhes, embora sem profundidade, as obras que publicaram. Talvez o primeiro caminho seguro para os futuros intérpretes futuros. No terreno da ficção, publicou dois livros de contos - "A toa" e "Fogo de Palha", servindo-se do material das lendas ou de acontecimentos reais. Retrata com talento caracteres físicos e reproduz nos diálogos a fala sertaneja, com sinceridade. As suas descrições de cenários naturais parecem copiadas pela acuidade de pintor genial.

As páginas de João Pinheiro entusiasmam por virtude de um estilo simples e do modo tão dele de reproduzir cenas em que cabras corajosos do sertão duro se mostram em toda a arrogância nas lutas de suor e morte. O contista piauiense merece ser relido das novas gerações.


A. Tito Filho, 27/11/1987, Jornal O Dia

SETENTA ANOS

A 4 de agosto de 1901 - conta João Pinheiro - reuniram-se, em casa do próprio memorialista, rua da Glória, Higino Cunha, Arquelau Mendes, Luís Evandro Teixeira, Domingos Monteiro, João Pinheiro, Antonino Freire, Clodoaldo Freitas, Manoel Lopes Correia Lima, João José Pinheiro e Fócion Caldas, e criaram a Academia Piauiense, para constante trabalho em favor do primeiro domingo seguinte, o que não houve. A iniciativa faleceu no nascedouro. Surgiram outras associações literárias, como a "Sociedade José Coriolano", os grêmios "Esperança", "David Caldas", e o primeiro “Cenáculo Piauiense de Letras”, em 1913, nascido morto.

Fundaram-se seguidamente o Congresso Estadual de Letras (1914), a Academia Piauiense de Letras (1917), a Arcádia dos Novos (1918), o Cenáculo Piauiense de Letras, pela segunda vez (1927), a Associação dos Moços Teresinenses (1932) e o Clube dos Novos (1946), este sob o comando de M. Paulo Nunes, para falar das entidades criadas antes do primeiro centenário de Teresina, todas de vida curta, com exceção da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, - e este não morreu por virtude dos teimosos e grandes esforços de Josias Carneiro da Silva.

A idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras coube a Lucídio Freitas, jovem poeta muito admirado. Deu-se o episodio as nove da manha de 30-12/1917, no Salão nobre do Conselho Municipal, Praça Marechal Deodoro, prédio em que durante muitos anos funcionou a Intendência e de 1936 em diante a Prefeitura. Fundadores, por ordem do registro da ata respectiva: Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas, Celso Pinheiro e Lucídio Freitas, que foi presidente da reunião.

De 1917 até hoje governaram o sodalício os presidentes Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Matias Olímpio, Martins Napoleão, Álvaro Ferreira, Clidenor Freitas Santos, Simplício Mendes. Desde 1971, vem sendo conduzida humildemente pelo autor destas notas.

A instituição manteve-se fiel a Lucídio Freitas e aos seus nove companheiros fundadores. Funcionou em casas particulares, em prédios oficiais ou alugados pelo governo, viveu sem tostão, aqui e ali auxiliada por governantes decentes que lhe publicavam a revista e obras literárias dos acadêmicos - mas nunca esmoreceu. Possui hoje a sede própria e sustenta-se de pequenas rendas que lhe proporcionam órgãos do governo, e prossegue, com dignidade, o modesto trabalho de bem servir, sem que jamais tenha cobrado de quem quer que seja pagamento de serviços prestados, pois tem como dever precípuo a cooperação com a vida cultural da terra.

Setenta anos está inteirando a Casa de Lucídio Freitas neste dia 30 de dezembro de 1987. Orgulho-me dela e dos companheiros que me ajudam a conduzi-la, no respeito permanente à memória dos que a fizeram e não permitiriam que o ideal morresse - o ideal de Lucídio, tão grande que continua vivo e inspirador.


A. Tito Filho, 30/12/1987, Jornal O Dia

MESTRE ODILON

AS PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ, de Odilon Nunes, em 4 volumes, revelam a saga piauiense, dos primeiros tempos até o fim do período provincial, uma saga com gosto e sabor de tragédia.

Do volume inicial constam a pré-história, os primeiros contatos com a terra, os primórdios da colonização e dos currais, a ausência de disciplina legítima e os governos que deram começo à vida política. A narrativa abrange os índios, a matança destes, a sangueira, o genocídio, as lutas sem fim, as sesmarias, o Parnaíba, riozão famoso, o território imenso de população escassa. Uma vez escrevi que a história do Piauí, no princípio, está no pânico e no vácuo. Dias perigosos: o pânico. A volúpia mortífera das desgraças do meio: o vácuo. Odilon mostra e interpreta isto tudo. Neste ponto o seu extraordinário valor: análise dos episódios, causas e consequências. Domingos Afonso Mafrense e o xará Domingos Jorge Velho - sertanista e bandeirante - penetraram o Piauí com seus troços de gente, e colonizaram terras, senhores de sesmos e de latifúndios, de gado bovino de outras paragens. Sobre o primeiro não há dúvida. Com o outro, o paulista, baita de homem severo e truculento, indicam alguns historiadores e dizem que não passa de lorota a sua vinda ao Piauí, donde saiu para a matança dos Palmares, nas Alagoas.

Odilon estudou detidamente o fato em mais de um trabalho, anotou referencias a bandeiras paulistas que agiam nos sertões do São Francisco. Fim do século XVII. Admirável a ação dos catequistas. O Piauí torna-se cenário histórico empolgante. Já o bandeirante transmuda-se em curraleiro, encourado, nômade, solitário, individualista - são ensinamentos de Odilon. A riqueza era o gado e da rês se aproveitava tudo, a carne, os ossos, o tutano, bofes, cascos, couro, chifres, fezes, até o membro genital enorme do bovino; na panela, no cornimboque, nas liteiras, no gibão, nos arreios, em certos vasilhames de viagem, nas portas, nas calçadas. Muitos falaram dessa civilização do couro.

Sertão desconhecido, ignoto, temeroso. Dizem até que a famosa Casa da Torre, no litoral da Bahia, tinha duas faces, uma para o mar, vigiando piratas e inimigos, outra para as terras de perigos sempre fartos.

Até a independência, a história do Piauí se resume quase na história da pecuária. Bois, vacas, garrotes e bezerros apinhavam os lugares. Cada vez mais cresciam os rebanhos sem mercados. O vacum representava a moeda, o dinheiro. Inexistia patrão. O vaqueiro não era empregado, mas sócio nas reses, e escreveu páginas inesquecíveis na vida piauiense.


A. Tito Filho, 13/11/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 17 de junho de 2011

TEMPO DE FRUTAS

Ninguém mais se lembra de Job Vial, de crônicas saborosas sobre esta Teresina deformada. Job Vial outro não se era Joel Oliveira, pesquisador, humorista, colecionador de estórias de gente e de bichos da cidade a que ele dedicava afeição permanente. Busquei-o agora nos meus arquivos e reli "Quintas e Quintais", numa das recordações de Joel - e nessa crônica está o teresinense preocupado com o cultivo das árvores frutíferas abundantes na capital piauiense - a cidade verde, hoje de matas derribadas e sem pés de frutas de colheita segura para as merendas fartas. Havia terrenos plantados por toda parte, e cada celeiro possuía denominação ligada a mulher do proprietário, como a célebre Lavinópolis, ou recebia nomes de cidades, a exemplo de Olinda, Petrópolis, ou nomes de terras distantes - Granada, Zurich, Catânia, ainda se lembravam santos, Tebaida, Betânia, - e por esta forma se conheciam dezenas de quintas e quintais de Teresina, de abundante produção de variadas frutas - goiaba, groselha, pitomba, carambola, banana, limão, figo, sapoti, laranja - e a laranja tinha variedade enorme e dava trabalho livrá-las dos pulgões, das brocas e de outros males. Quantos nomes de laranjas estão na lembrança da gente: a seleta, a bahia, o mimo-do-céu, pingo-de-ouro, natal, pêra, mel-rosa, da-china, tanja, lima, mandarim, cada uma melhor que a outra. Nos dias que correm ainda se encontram alguns tipos desses ricos alimentos cítricos. Já agora em 1987 sumiu-se o caju. Safra pequeníssima. O caju que nada custava a quem o comia, apanhando-o debaixo dos cajuais nas matas teresinenses, derribadas pelo machado das construtoras. O caju da castanha de que o índio se servia para contar a idade. Cada castanha, mais um ano de vida. Menina de castanha, sim, era menina prendada. Jogava-se castanha nas calçadas, sem lambança. O caju dava ainda a cajuada, a cajuína, o doce, o tira-gosto. O pequenino, o cajuí, tinha também seu emprego. Sumiu-se a manga, ou quase está a desaparecer: a de biquinho, a governadora, moscatel, a jambo, a vovó, a espada, a vista-alegre, a de leite - restam hoje a rosa, a lira, a de fiapo, a manguito-do-correio, por preços inacessíveis.

Joel Oliveira, o Job Vial das crônicas saborosas de antigamente, cultor do humorismo à inglesa, se vivo estivesse se decepcionaria com uma Teresina sem arvores frutíferas, a sua riqueza de antigamente - fartura das mesas pobres e da classe média, num tempo em que os pobres podiam viver e a classe média governava uma sociedade justa e decente.
 

 
A. Tito Filho, 12/12/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

LITERATURA PIAUIENSE

Quando, em 1973, organizei e comentei, a pedido de Deoclécio Dantas, toda a produção literária de Raimundo Zito Batista, escrevi, no livro que se publicou, o seguinte, a respeito da sua poesia: "Em Zito não há o sentimento da paisagem piauiense. Amadureceu no mundo da máquina, da metralhadora, do avião, da guerra - mas esses temas não se revelam nas suas criações poéticas. Toda a sua temática é melancólica - as angustias íntimas vitais e universais. Verso denso, enérgico, grave, dolorido. Habilíssimo no decassílabo. Sua obra revitaliza os temas fundamentais do amor, do ódio, da mulher, do sofrimento. Puro tradicionalismo estético, de terrível sinceridade, de realidade viva e dolorosa. São raros os poetas como ele, de tanta força expressiva. Há, nas suas concepções, desolada e humana visão da vida e da intimidade do homem. Poesia psicológica - poesia essencial".

Na poesia de Zito não se encontra o Piauí, na sua paisagem social, histórica ou geográfica. Pelo menos não a encontrei, embora lesse e relesse os poemas com dobrada atenção. E outros nascidos em terras piauienses fizeram literatura pelo mesmo jeito de Zito nos versos concebidos: não há temas interiores ou exteriores com o Piauí. Esses autores, pois, como Cruz e Sousa em Santa Catarina, pertencem à literatura brasileira, nunca a literatura da chamada terra natal. Defendo o principio de que a literatura piauiense se comporá dos documentos cujo conteúdo seja de temas de nossa terra, com problemas de qualquer natureza, e se assim acontece, óbvio será que à obra se incorporará o cenário natural piauiense.

O admirável Assis Brasil publicou um livro em que o Parnaíba é personagem principal - e todo o seu cortejo exuberante de beleza e riqueza na meninice do escritor. Do cenário piauiense, social e geográfico do Piauí se apresenta a denominada Teatrologia, integrada dos romances verdadeiros "Beira Rio Beira Vida", "A Filha do Meio Quilo", "O Salto do Cavalo Cobridor" e "Pacamão". Todos os demais produtos literários da inteligência de Assis Brasil - uns 50 livros - não pertencem à literatura piauiense.

Assim penso, salvo melhor juízo dos doutos e entendedores universais do assunto.


A. Tito Filho, 08/11/87, Jornal O Dia

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.

Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.

A. Tito Filho, 01/12/1987, Jornal O Dia