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domingo, 19 de junho de 2011

A CASA E O FANTASMA

Inteligente, de agradável palestra, educada, mulher de espírito forte, desde garotinha tem merecido palmas e admiração, como naquela noite maravilhosa em que participou de hora de arte no Theatro 4 de Setembro, com Lígia Martins, Maria Alice Rebelo, Ivone Bandeira e outras coleginhas do mesmo tope. Uma ocasião saiu fantasiada de francesa, num bonito acontecimento artístico de Teresina. As idéias e as atitudes fizeram-na, no percurso da vida, vereadora em São Luís, onde residia. Voltando a Teresina, aqui tem sido uma legítima representante do pai Eurípedes Clementino de Aguiar, o político e jornalista de grande conceito em todo o Piauí, e cuja casa residencial a filha Genuzinha Aguiar Correia transformou numa espécie de arquivo e museu daquele que conquistou mandatos eletivos diversos à custa de prestígio e liderança. Conheci Eurípedes, rico colecionador de apelidos - Urso Branco, Macacão de Matões, Gostosão da Vicença, - em 1947, no dia 19 de janeiro, em que ele fazia aniversário. Tornei-me freqüentador da mansão e lá de vez em quando me encantava para ouvir-lhe a boa prosa, bate-papo jovial, alegre, desopilante. Trabalhamos juntos: eu delegado, Eurípedes chefe de polícia.

O velho e seguro comandante tinha como riqueza importante: a afeição da mulher virtuosa e dos quatro filhos, dois dos quais varões.

Genuzinha guarda, com a vigilância dos dragões da lenda, a casa em que habitou uma das figuras de maior evidência no Piauí, até a década de 50, quando realizou a viagem final. Nas dependências do prédio se encontram cousas pessoais de Eurípedes, bengalas, chapéus, a escrivaninha, a cadeira de trabalho e muitos objetos de uso da família - móveis, louçaria, imagens de santos, vasos e decorações diversas, tudo disposto com engenho e carinho. A laboriosa produção jornalística de Eurípedes está nos arquivos sob o olhar vigilante do amor filial.

Foi aí na casa ilustre que recentemente se deu o lançamento do último livro de Renato Castelo Branco, "O Rio Mágico" - e Renato tem sido fazedor permanente de livros bons, sinceros, que enobrecem a literatura nacional: "A Química das Raças", "A Civilização do Couro", "Teodoro Bianca", "A Janela do Céu", "Candango, Blaiberg, Gagarin", "Pré-História Brasileira", "Tomei um Ita no Norte", "Os castelos Brancos d'Aquem e d'Além Mar", "A Conquista dos Sertões de Dentro", "Rio da Liberdade", "Senhores e Escravos", "O Planalto", "Amor e Angústia", "O Anticristo" - agora "O Rio Mágico", de força lírica e telúrica, reencontro do homem feito e perfeito com as suas origens de menino, adolescente e moço. Fui o apresentador do livro e não pude esquecer o ambiente sagrado em que me achava, com bocado de pessoas amáveis, para aplaudir o escritor - o ambiente de Eurípedes, pouco mais de 40 anos atrás sentado no salão maior, o sofá e as cadeiras dando para a porta da rua. Não consegui deixar de vê-lo dentro da memória, sorrisão constante, tipos adversários desfilando pela galhofeira.

Quando a festa chegou ao fim, e saí para o merecido repouso da choupana distante, depois do Poti, eu ainda via o fantasma de Eurípedes de Aguiar. Por dentro eu me perguntava qual a vitória da morte. Por que morrem os que são úteis a humanidade? Não tive resposta. O jeito estava em deixar com Genuzinha Aguiar Correia o fantasma sagrado do seu pai insubstituível.


A. Tito Filho, 24/12/1987, Jornal O Dia

JOÃO PINHEIRO

O conto foi pouco cultivado nas primeiras fases da Literatura piauiense. Parece que o primeiro em salientar-se nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco, diplomata, que serviu em Assunção do Paraguai e morreu na cidade francesa de Marselha. Em 1874 publicou "Um Figurino", uma só pequena estória, e dois anos depois entregava aos leitores "Contos a Esmo". Seguem-se diversos contistas como João da Cruz Monteiro ("O Major Irineu Gomes Coelho"), João Alfredo ("Contetos"), João Licínio de Miranda Barbosa ("Esmaltes"), Arquelau de Sousa Mendes, Júlio Emílio de Paiva Rosa ("As infelicidades de Tibério"). No século XX salientavam-se nesse tipo literário Amélia Bevilaqua e Clodoaldo Freitas. E mais perto de nós se encontram Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, Lilizinha Carvalho, Edgar Nogueira, Fontes Ibiapina, para que se citem apenas os que passaram desta para melhor vida. Mas no meio desses cumpre colocar o principal deles, o que deu expressão ao conto regional piauiense, homenageado, ano a ano, com um concurso de contos que leva o seu nome - João Pinheiro, falecido no Rio de Janeiro mais de quarenta anos passados. Dentista da profissão, chegou a criar e vender o "Pó Ideal", dentifrício aromático.

Mas seguiria outros rumos - o magistério, em que se tornou mestre acatado de português; e as atividades intelectuais, respeitável estudioso de nossa história e de nossa vida literária, além de poeta e contista. Entre outros trabalhos, publicou uma história da literatura piauiense, em que fixa as suas fases iniciais, autores respectivos, analisando-lhes, embora sem profundidade, as obras que publicaram. Talvez o primeiro caminho seguro para os futuros intérpretes futuros. No terreno da ficção, publicou dois livros de contos - "A toa" e "Fogo de Palha", servindo-se do material das lendas ou de acontecimentos reais. Retrata com talento caracteres físicos e reproduz nos diálogos a fala sertaneja, com sinceridade. As suas descrições de cenários naturais parecem copiadas pela acuidade de pintor genial.

As páginas de João Pinheiro entusiasmam por virtude de um estilo simples e do modo tão dele de reproduzir cenas em que cabras corajosos do sertão duro se mostram em toda a arrogância nas lutas de suor e morte. O contista piauiense merece ser relido das novas gerações.


A. Tito Filho, 27/11/1987, Jornal O Dia

O CORDEL

A literatura de cordel tem natureza nordestina, não resta dúvida. Promanou de fatores diversos, entre os quais o isolamento do homem rural, analfabeto, de religiosidade simples, enfrentando sacrifícios, a ouvir, pela boca das visitas esporádicas e nas feiras sertanejas, estórias de cangaço e cangaceiros, a padecer o drama das secas e a violência dos ricos, a memorizar assassínios entre famílias inimigas, de linguagem chã, comunicando-se com o emprego de vocábulo pobre e parco, por virtude da falta de relações humanas. Não há que dizer senão o trivial reduzido às circunstâncias da roça, da bóia, da chuva ou da falta dágua, da bicheira dos animais. Marido, mulher e filhos desses trechos de chão perdidos falam pouco porque não têm interlocutores. Daí que com poucas palavras se transmitiam, nos tempos velhos, idéias e impressões no ajuntamento familiar. A linguagem possuía sonoridade latina na boca desses matutos - jenta, lúa, men-ã, por janta, lua, manhã, eram modos de dizer da herança avoenga.

Violeiros, nos sortidos mercados semanais de vilas e cidades, recitavam versos e emocionavam platéias. Cantadores ofereciam o espetáculo dos desafios, sob aplausos, risos e admiração. Poetas populares cantavam façanhas, criavam mitos, lembravam santos milagreiros, reproduziam idílios de donzelas e príncipes encantados.

No século XIX, quase no final, iniciou-se a divulgação desse cancioneiro, - fisionomia do Nordeste, das suas crendices, dos seus feitos, dos seus heróis, da sua fé, também da sabedoria do homem que versejava. A revolução industrial que sacudiu os alicerces da sociedade já se tinha evidenciado, e cada vez que se escoavam os anos na voragem do tempo a máquina fazia outros prodígios. Desenvolveram-se as comunidades. Encurtaram-se distâncias. As fábricas produziram veículos, aparelhos de costurar, aeroplanos, remédios, instrumentos terríveis de matança. O cinema, o rádio, o rádio de pilha, a televisão e os sistemas educacionais alcançaram povoações e o livro multiplicou-se.

A literatura de cordel haveria de declinar com as profundas modificações verificadas na vida nordestina. Revolucionaram-se hábitos e costumes. Sepultaram-se preconceitos. Houve mudanças no comportamento do homem, da mulher, da família, do corpo social. Todos os processos culturais de vida padeceram severas influências da civilização industrial.

Declinou, é verdade, mas o cordel ressurgiu e cresceu, mais divulgado e vendido, por todos os cantos do país. Aprimoraram-se as edições e aumentou o seu mercado de vendas. Intrometeu-se na política partidária, cantando méritos de líderes estadistas. A nova vida do cordel se deu porque se tornou objeto de estudos sérios para análise dos temas e mensagens sociais e espirituais que ele transmite. Penetrou as universidades e vive no ensinamento dos críticos como irrecusável arte popular.


A. Tito Filho, 15/11/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ROTEIRO DE PEDRO SILVA

Pedro José da Silva era o nome todo. No Rio, onde residia, organizou os dois volumes de "O Piauí no Folclore", a que ele dedicou boa parte da velhice, - trabalhando em cinco partes, os tipos, as cenas, os costumes; a religiosidade, as festas de São João; o ciclo do natal; e por fim as danças típicas e gêneros musicais. Um dos volumes constava de numerosos fonogramas, ou sons gravados correspondentes às letras das cantigas folclóricas.

Nasceu Pedro Silva em Teresina, ano de 1892. Morreu em 1974, na antiga capital da República. Recebi os dois volumes referidos no princípio de 1975, ao tempo dos últimos dias de Secretário da Cultura - e os deixei para publicação na própria Secretaria e só agora, neste 1987, localizou-se a obra de Pedro Silva, mas sem os fonogramas, que se sumiram. Confiada a mim, pela viúva, entreguei-a à Academia Piauiense de Letras. Para atendimento de atencioso pedido de Eugênia Maria Ferraz, nobre mulher que vem norteando a Fundação Monsenhor Chaves para a destinação cultural da entidade, a ela cedi à coletânea de Pedro Silva para publicação e divulgação.

Pouca gente se lembra de Pedro Silva, músico e maestro, organizador, harmonizador e regente da Banda de Música do 25º Batalhão de Caçadores, de Teresina, que tanto animou a praça Rio Branco dos velhos tempos românticos nas retretas do coretinho central. Muito novo, no começo do século, criou, com Jônatas Batista, o Clube Recreio Teresinense, que levou a cena, no respeitável Theatro 4 de Setembro, as peças "Natal de Jesus" e "Jovita".

Esse dois piauienses - Jônatas e Pedro - tornaram-se as duas principais figuras da vida teatral da capital piauiense durante anos.

Pedro foi também fundador da sociedade teatral "Amigos do Palco", de amadores inteligentes.

Entre 1917 e 1925, o 4 de Setembro viveu grandes temporadas com as revistas de Jônatas musicadas por Pedro: "O Bicho", sátira ao popular jogo criado pelo barão de Drummond, no Rio; "Frutos e Frutas", "O Coronel Pagante", entre outras.

O ativo maestro ainda fundou o Pálace, na praça Rio Branco, animada casa de diversões de muita freqüência, e posteriormente arrendou o Theatro 4 de Setembro, instituindo a empresa Silva e Companhia, quando trouxe a Teresina célebres companhias teatrais de outras terras.

Passando a residir no Rio de Janeiro, trabalhou em estações de rádio como a Mayrink Veiga e a do Ministério da Educação, época em que muito difundiu o folclore do seu Piauí.

A. Tito Filho, 10/12/1987, Jornal O Dia    

LITERATURA PIAUIENSE

Quando, em 1973, organizei e comentei, a pedido de Deoclécio Dantas, toda a produção literária de Raimundo Zito Batista, escrevi, no livro que se publicou, o seguinte, a respeito da sua poesia: "Em Zito não há o sentimento da paisagem piauiense. Amadureceu no mundo da máquina, da metralhadora, do avião, da guerra - mas esses temas não se revelam nas suas criações poéticas. Toda a sua temática é melancólica - as angustias íntimas vitais e universais. Verso denso, enérgico, grave, dolorido. Habilíssimo no decassílabo. Sua obra revitaliza os temas fundamentais do amor, do ódio, da mulher, do sofrimento. Puro tradicionalismo estético, de terrível sinceridade, de realidade viva e dolorosa. São raros os poetas como ele, de tanta força expressiva. Há, nas suas concepções, desolada e humana visão da vida e da intimidade do homem. Poesia psicológica - poesia essencial".

Na poesia de Zito não se encontra o Piauí, na sua paisagem social, histórica ou geográfica. Pelo menos não a encontrei, embora lesse e relesse os poemas com dobrada atenção. E outros nascidos em terras piauienses fizeram literatura pelo mesmo jeito de Zito nos versos concebidos: não há temas interiores ou exteriores com o Piauí. Esses autores, pois, como Cruz e Sousa em Santa Catarina, pertencem à literatura brasileira, nunca a literatura da chamada terra natal. Defendo o principio de que a literatura piauiense se comporá dos documentos cujo conteúdo seja de temas de nossa terra, com problemas de qualquer natureza, e se assim acontece, óbvio será que à obra se incorporará o cenário natural piauiense.

O admirável Assis Brasil publicou um livro em que o Parnaíba é personagem principal - e todo o seu cortejo exuberante de beleza e riqueza na meninice do escritor. Do cenário piauiense, social e geográfico do Piauí se apresenta a denominada Teatrologia, integrada dos romances verdadeiros "Beira Rio Beira Vida", "A Filha do Meio Quilo", "O Salto do Cavalo Cobridor" e "Pacamão". Todos os demais produtos literários da inteligência de Assis Brasil - uns 50 livros - não pertencem à literatura piauiense.

Assim penso, salvo melhor juízo dos doutos e entendedores universais do assunto.


A. Tito Filho, 08/11/87, Jornal O Dia

domingo, 12 de junho de 2011

CONTRIBUIÇÃO DOS MOÇOS

Dirigimos o Colégio Estadual do Piauí, o velho e querido educandário fundado por Zacarias de Góis e Vasconcelos, no Piauí-Província, hoje com o nome do fundador - dirigímo-lo no período de 1954-11958, e dele guardamos proveitosa experiência: os moços são bons, amigos sinceros e gostam das atitudes sérias e da ordem, da disciplina consciente, do estudo e da convivência. Desviam-se do caminho certo quando por parte dos adultos recebem a lição da sem-vergonhice, da desonestidade, da desfaçatez, do inescrúpulo, do cinismo. Existiriam, pois, maduros transviados, e o transviamento do jovem se daria por através daqueles.

No enterrado mês de setembro de 1987, decorreu o primeiro centenário de nascimento de Raimundo Zito Batista, poeta de bonitas concepções líricas, nascido em Natal, povoado de Teresina, depois unidade piauiense autônoma com o batismo de Monsenhor Gil. Estudiosos universitários dessa simpática comunidadezinha, antigo quartel de Luiz Carlos Prestes no cerco da capital piauiense, demonstraram que a mocidade tem riqueza cívica e espiritual - e criaram a Associação Universitária de Monsenhor Gil, cujas primeiras atividades se voltaram para reviver a figura do poeta Zito Batista, e o fizeram de maneira exemplar, num debate sobre a poesia do homenageado, e deram à luz plaqueta em que se reuniram comentários de boa cepa de talentosos estudantes conterrâneos do centenariante - crítica literária do melhor conceito. J. Cardoso do Nascimento Júnior, Mário Medeiros, Joaquim Campelo Filho, Carlos Alberto Pessoa prestaram serviços valiosos à literatura piauiense, em análise e interpretação de uma obra vasta e complexa, ao mesmo tempo em que viveram instantes de glória do infeliz e angustiado varejador.

Raras instituições piauienses se lembraram de Zito Batista. Sabemos de duas: a Academia Piauiense de Letras, que  divulgou a vida e a obra do poeta pelo jornalismo, e a promissora Associação Universitária de Monsenhor Gil, com o apoio e a solidariedade da Secretaria de Educação e da casa de Lucídio Freitas.

A novela nacional pelas têves não permitem que se conheçam a inteligência e o poder criativo dos piauienses mortos. Melhor a educação para a ignorância aprendendo-se que Édipo-rei não passou de reles contrabandista de pedras preciosas.

Graças a Deus Sófocles está vivo - porque os mortos, na sentença de Grieco, não raro mais vivos que os vivos, como a contribuição dos jovens de Monsenhor Gil provou.


A. Tito Filho, 06/11/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CELSO O POBREZINHO

Era em 1936. Centenário do jornalista Davi Caldas. O governador Leônidas Melo realizou grandes festas comemorativas. Solenidades literárias, edição extraordinária de jornais. Muita despesa dos cofres públicos. Petrônio Portella, no seu tempo governamental, instituiu concursos, deu dinheiro para alguns grupos teatrais, publicou livros de piauienses. Alberto Silva, no primeiro Governo, editou cerca de quarenta obras, sob orientação da Academia Piauiense de Letras e esta nem o seu presidente, pelo relevante e estafante serviço, nada cobraram. Dirceu Arcoverde mandou-me no rumo de Recife, deu-me passagem e alguns níqueis para hospedagem. Acompanhei a confecção dos painéis de poesias de Da Costa e Silva, durante cinco dias, enfrentando chuva, nas oficinas desconfortáveis de Bórsoi, os painéis para a praça do mesmo nome, em Teresina. Nenhum tostão tive de pagamento. A Casa de Lucídio Freitas tem prestado valiosa colaboração ao Piauí, a Teresina, a organismos oficiais, a entidades particularidades, educandários, estudantes, jovens escritores - e jamais cobrou, ou o autor destas linhas, um centavo de quem quer que seja, Lucídio Portella, à frente da administração do Estado, promoveu comemorações dos centenários de Matias Olímpio e Pedro Brito. Autorizou elevadas despesas com solenidades, recepções, livros, sob orientação da APL. O Governador Hugo Napoleão viveu um ano inteiro festejando o primeiro centenário de Da Costa e Silva. Pagou jornais e jornalistas. Fez reuniões em Brasília. Conferências literárias em Teresina, com vinda de diplomata de Londres. Realizou caríssimas edições especiais de revistas, obra completa do poeta, em trabalho de luxo, confeccionado na Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. Deram-se permanentes festejos em Amarante, - milhões e milhões de cruzeiros gastos em programas comemorativos. Até camisa com o retrato do grande escritor foi distribuída. Esses governadores cumpriram o dever sagrado de prestigiar os mortos queridos do Piauí, que projetaram a terra nos domínios da inteligência. Aplaudiram-nos todos os setores conscientes da sociedade. Dias de beleza espiritual. Recordaram-se as memórias de conterrâneos ilustres. Chegou este ano de 1987 a vez de Celso Pinheiro, piauiense, uma das maiores vozes da poesia nacional, que, vivo, estaria completando o primeiro centenário de nascimento. Quase nada se fez em sua homenagem. Um recitativo aqui, um discursozinho ali. Ninguém lhe deu projeção. A neta culta, Lina Celso, com apoio do Projeto Petrônio Portella, entregará brevemente ao público um livro do poeta, dos mais de vinte títulos que ele organizou. A Academia Piauiense de Letras, em sessão, fez o elogio de Celso e lembrou-lhe a obra aureolada. E para conhecimento da coletividade distribuiu quinze linhas datilografadas sobre o imenso morto, com bilhetes de pedidos de divulgação dirigidos a Octávio Miranda, Elvira Raulino, Mário Soares, Paulo Henrique, Edmilson Caminha Júnior, Luiz Alberto Falcão, Dídimo de Castro, Padre Tony e à Secretaria de Comunicação do Governo do Estado. Pedi a divulgação, pois a Academia não possui dinheiro para pagar publicações jornalísticas. Tem subvenção de vinte mil cruzados mensais, quantia que mal paga material de expediente, material de limpeza, correspondência no correio e outros gastos mínimos, e anualmente o MEC lhe oferece uma esmola - este ano de 1987 apenas vinte e oito mil cruzados. Não foi possível promover comemorações significativas. A Casa de Lucídio Freitas não dispõe de recursos. A própria sede em que funciona constitui presente do ex-governador Hugo Napoleão, que ainda lhe deu máquinas de escrever e mobiliário, - ato da maior grandeza espiritual. Pobrezinho do Celso Pinheiro. Poeta imenso, viveu amargurado, tuberculoso, rico apenas de cabeça e coração - continua a padecer o esquecimento e a injustiça dos homens perversos.


A. Tito Filho, 06/12/1987, Jornal O Dia