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quarta-feira, 22 de junho de 2011

AS ACADEMIAS

Os grandes poetas de frança, nos últimos tempos do século XVI, costumavam reunir-se, a fim de que discutissem literatura e outros temas. Suspensos esses encontros por razões de guerra, no princípio do século seguinte a intelectualidade mais projetada retorna às reuniões - Corneille, Bossuet, La Rouchefoucald e outros. Em 1635 constitui-se uma associação e Richelieu a oficializa dando-lhe a prerrogativa de reguladora da língua francesa e guarda das suas tradições. Concedeu-lhe o cardeal privilégios. Nascia a Academia Francesa, matriz de muitas que se foram criando com o passar dos anos. Atacada duramente, resistiu às mais impenitentes censuras. Desprezou-se a Lesage. Culparam-na da decadência da literatura. Diziam-na alguns própria das mediocridades felizes. Manteve-se serena e forte, alheia aos apedrejamentos.

Outras instituições surgiram na Europa, como a Arcádia Romana, a Academia dos Confinados de Pavia, dos Declarados em Sena, dos Elevados em Ferrara, dos Inflamados em Pádua, dos Unidos em Veneza, dos Generosos e dos Singulares em Portugal - para citar algumas que pude colher em publicações diversas.

Na terra lusitana, no avôzinho Portugal, fundaram-se a Academia Ulissiponense, a Academia das Ciências, ainda hoje de grande prestígio nos domínios da vida intelectual portuguesa, a Nova Arcádia.

O Brasil teve, na Bahia, a Academia dos Esquecidos, a Academia dos Felizes, a dos Seletos e a dos Renascidos. No Rio de Janeiro, apareceria a Arcádia Ultramarina em 1770.

Criou-se a Academia Brasileira de Letras e cada Estado da Federação criou a sua, pelo modelo da Francesa e da Brasileira. Chegaria a vez das academias regionais e municipais, e neste ponto o Brasil hoje está rico numericamente de entidades acadêmicas por dezenas e dezenas de municípios. Além da Piauiense, o Piauí, já conta com mais três. É bom que assim seja, para que se intensifique a atividade intelectual, uma vez que, esses centros constituem incentivo a quantos aspirem a um lugar ao sol na vida da inteligência das coletividades.

De todas essas organizações culturais, a mais famosa sempre foi a celebérrima Academia Francesa, de propósitos tradicionais, guardiã de bom estilo, na verdade um grêmio literário nobre e do mais alto acatamento.

Os incautos ou desconhecedores dos objetivos verdadeiros das Academias pensam que nelas só devem assentar-se poetas, teatrólogos, ficcionistas. Puro e ledo engano. As Academias que se prezam convocam para as suas atividades todos os que podem concorrer para o aperfeiçoamento espiritual do homem.


A. Tito Filho, 19/12/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 20 de junho de 2011

GENTE CORAJOSA

Padre Joaquim Chaves escreveu que em 1875 só existia uma livraria em Teresina - a Livraria Econômica, na rua Paissandu, que vendia gravatas, leques, botinas, chapéus, lãs, chitas, vinhos, doces, biscoitos, queijos, inclusive livros, papel, pastas e objetos de fantasia. Assenta o bom historiador da cidade que nesse tempo as lojas eram verdadeiros bazares, de sortimento variadíssimo. No ano de 1917, quando se criou na Chapada do Corisco o jogo do bicho e se fundou a Academia Piauiense de Letras, vendiam livros quatro firmas: A. Carvalho e Companhia, Gomes Ferreira, João de Castro Lima, Leocádio Santos Irmão e Companhia. No estabelecimento de João de Castro Lima, que o povo chamava de Juca Feitosa, comprei, aos dez anos de idade, exemplares de Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Bernardo Guimarães, Joaquim Manoel de Macedo, Alencar e outros, brochuras empoeiradas, que se atiravam a velhas prateleiras de uma sala mal iluminada, escondida por trás do salão de vendas. Livro era objeto de categoria inferior, adquirido por gente sem que fazeres, desocupada, segundo se comentava. Na década de 30, M. A. Tote tinha loja na rua Coelho Rodrigues com venda de revistas do Rio de Janeiro, frequentadíssima. Vendiam-se também a coleção Terramarear, de muito agrado, narrativas de aventuras em terras misteriosas, as peripécias do Tarzan na selva africana, romances policiais de Edgar Wallace e a ficção científica de Julio Verne. Bons tempos, leitura proveitosa, suculenta, alimento de inteligência. Deixei Teresina para estudos noutras paisagens. Percorri novas pátrias, como a cearense e a carioca. Um dia regressei aos penates, à casa paterna, à terrinha onde a própria dor dói menos, como assentou o Juca Mulato.

Mais livreiros abnegados, corajosos, foram surgindo na cidade raquítica de leires, em que, ainda hoje, o empresário derrama pelo gogó escocês legitimo de custo acima do salário mínimo, mas se recusa a comprar um livro de autor piauiense. Surgiram o aplaudido Nilo Marinho, de dedicação exclusiva a esse mister cívico de distribuir idéias; o inteligente Nobre, descrente do poder público, perseverante, sincero, muito sortido de obras célebres e populares; o inquieto Cineas Santos, estudioso da vida e do homem que nela se agita, principalmente o teresinense; o incansável Pacheco, teimoso na arte de vender, solicito, rabo na rapadura de propagador de coleções ricas e úteis desde moço. Quem mais? Perdão pelas falhas de memória a respeito de gente do passado e do presente. Ao correr da pena, na pressa jornalística que atormenta, não se pode demorar à cata de registros da história dos livreiros de Teresina. Este rascunho tem o objetivo cujo gesto Clidenor Freitas Santos elogiou, o de dotar a cidade com elegante livraria, edifício de três pavimentos - Gilberto Mendes Farias, a quem, numa manhã de justiça, a Academia Piauiense de Letras fez louvação, estendendo a todos os que dedicaram aos teresinenses o carinho e a nobreza do trabalho pelo desenvolvimento intelectual da cidade.


A. Tito Filho, 28/11/1987, Jornal O Dia

domingo, 19 de junho de 2011

CELSO CENTENARIAMENTE

A 24 de novembro de 1877 nasceu, na pacata vila piauiense de Barras, Celso Pinheiro, que agora, vivo estivesse, festejaria o seu primeiro centenário de nascimento. Foi jornalista desde os tempos de estudante, poeta na mocidade sonhadora. Era filho do terceiro casamento de João José Pinheiro, também pai, em núpcias anteriores, de João Pinheiro e Breno Pinheiro, fulgurantes beletristas do tempo passado.

A quase totalidade da obra de Celso Pinheiro permaneceu inédita. Ele organizou-a em vida, distribuindo-a por 18 títulos, dois volumes de prosa e o restante de lídima poesia. Nas concepções figuram os pais, os irmãos, os filhos, a esposa, as moças tuberculosas de Teresina, a babá da meninice, bem assim os sofrimentos íntimos do poeta, a religiosidade, a beleza dos crepúsculos, as mulheres, os intelectuais. Em "Coroa de Espinhos" encontram-se os últimos poemas, os de uma semana antes de sua morte. Deixou uns cinco volumes de assuntos políticos, inclusive sátiras, justamente os que assinalam uma época de formidáveis paixões do partidarismo piauiense, de 1945 até a morte do poeta, em 1950.

As concepções literárias procedem das neuroses e dos sofrimentos dos seus autores. Celso não se desgarraria da observação. Desde cedo sofreu física e espiritualmente. Milionário de angustias intimas, alucinado de dor, pleno dos martírios que a vida lhe impõe, constrói os versos científicos de que abarrota gavetas e armários caseiros. Ele mesmo conta a sua história sem remédio em cada poema que colhe da alma em pranto.

Augusto dos Anjos realizou Eu com pedaços do coração maltratado. Deflorou e engravidou Maria, de humilde condição social. A mãe do poeta, senhora de engenho, mandou surrar a menina, que morre da surra - ela e o rebento da barriga. Augusto sofreu consequências violentas desse drama doméstico e tornou-se melancólico. Contou a tragédia no seu livro de tantas edições, acima referido. José Lima do Rego, conterrâneo do poeta, disse que ele escondia uma mágoa secreta, um rancor contra a própria mãe.

X  X  X

Em 1972, sustentei que Martins Napoleão, magnífico beletrista aceitava nos seus poemas a morte como processo de extermínio do sofrimento. Assim como Celso Pinheiro, foi Napoleão, no uso da palavra como conteúdo da poesia, como mensagem poética. Em Tomás Gonzaga, tudo se expressa nos adjetivos formoso, lindo. Duro é o adjetivo de Camões. Em Álvaro de Azevedo, pálido, lívio, frio. Napoleão se revela em essência pelo conceito: lágrima, pedra, sofrimento, amor, morte.

Celso Pinheiro consubstancia a angustia do homem martirizado pela crueldade da vida. Os versos revelam o seu verdadeiro psiquismo. Emoção a cada instante, e o vazio da alma, fazem dele um dos grandes poetas nacionais. A dor possessiva sublimou-o em comoventes criações poéticas - que não pertencem ao parnasianismo nem ao simbolismo, como disse Agripino Grieco. Penso que ele pretendeu, da forma que Horácio de Almeida sentiu em Augusto dos Anjos, ocultar o pensamento, num movimento de interpretar os profundos e martirizantes sentimentos íntimos e entregá-los ao mundo objetivo.


A. Tito Filho, 29/10/1987, Jornal O Dia

A CASA E O FANTASMA

Inteligente, de agradável palestra, educada, mulher de espírito forte, desde garotinha tem merecido palmas e admiração, como naquela noite maravilhosa em que participou de hora de arte no Theatro 4 de Setembro, com Lígia Martins, Maria Alice Rebelo, Ivone Bandeira e outras coleginhas do mesmo tope. Uma ocasião saiu fantasiada de francesa, num bonito acontecimento artístico de Teresina. As idéias e as atitudes fizeram-na, no percurso da vida, vereadora em São Luís, onde residia. Voltando a Teresina, aqui tem sido uma legítima representante do pai Eurípedes Clementino de Aguiar, o político e jornalista de grande conceito em todo o Piauí, e cuja casa residencial a filha Genuzinha Aguiar Correia transformou numa espécie de arquivo e museu daquele que conquistou mandatos eletivos diversos à custa de prestígio e liderança. Conheci Eurípedes, rico colecionador de apelidos - Urso Branco, Macacão de Matões, Gostosão da Vicença, - em 1947, no dia 19 de janeiro, em que ele fazia aniversário. Tornei-me freqüentador da mansão e lá de vez em quando me encantava para ouvir-lhe a boa prosa, bate-papo jovial, alegre, desopilante. Trabalhamos juntos: eu delegado, Eurípedes chefe de polícia.

O velho e seguro comandante tinha como riqueza importante: a afeição da mulher virtuosa e dos quatro filhos, dois dos quais varões.

Genuzinha guarda, com a vigilância dos dragões da lenda, a casa em que habitou uma das figuras de maior evidência no Piauí, até a década de 50, quando realizou a viagem final. Nas dependências do prédio se encontram cousas pessoais de Eurípedes, bengalas, chapéus, a escrivaninha, a cadeira de trabalho e muitos objetos de uso da família - móveis, louçaria, imagens de santos, vasos e decorações diversas, tudo disposto com engenho e carinho. A laboriosa produção jornalística de Eurípedes está nos arquivos sob o olhar vigilante do amor filial.

Foi aí na casa ilustre que recentemente se deu o lançamento do último livro de Renato Castelo Branco, "O Rio Mágico" - e Renato tem sido fazedor permanente de livros bons, sinceros, que enobrecem a literatura nacional: "A Química das Raças", "A Civilização do Couro", "Teodoro Bianca", "A Janela do Céu", "Candango, Blaiberg, Gagarin", "Pré-História Brasileira", "Tomei um Ita no Norte", "Os castelos Brancos d'Aquem e d'Além Mar", "A Conquista dos Sertões de Dentro", "Rio da Liberdade", "Senhores e Escravos", "O Planalto", "Amor e Angústia", "O Anticristo" - agora "O Rio Mágico", de força lírica e telúrica, reencontro do homem feito e perfeito com as suas origens de menino, adolescente e moço. Fui o apresentador do livro e não pude esquecer o ambiente sagrado em que me achava, com bocado de pessoas amáveis, para aplaudir o escritor - o ambiente de Eurípedes, pouco mais de 40 anos atrás sentado no salão maior, o sofá e as cadeiras dando para a porta da rua. Não consegui deixar de vê-lo dentro da memória, sorrisão constante, tipos adversários desfilando pela galhofeira.

Quando a festa chegou ao fim, e saí para o merecido repouso da choupana distante, depois do Poti, eu ainda via o fantasma de Eurípedes de Aguiar. Por dentro eu me perguntava qual a vitória da morte. Por que morrem os que são úteis a humanidade? Não tive resposta. O jeito estava em deixar com Genuzinha Aguiar Correia o fantasma sagrado do seu pai insubstituível.


A. Tito Filho, 24/12/1987, Jornal O Dia

JOÃO PINHEIRO

O conto foi pouco cultivado nas primeiras fases da Literatura piauiense. Parece que o primeiro em salientar-se nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco, diplomata, que serviu em Assunção do Paraguai e morreu na cidade francesa de Marselha. Em 1874 publicou "Um Figurino", uma só pequena estória, e dois anos depois entregava aos leitores "Contos a Esmo". Seguem-se diversos contistas como João da Cruz Monteiro ("O Major Irineu Gomes Coelho"), João Alfredo ("Contetos"), João Licínio de Miranda Barbosa ("Esmaltes"), Arquelau de Sousa Mendes, Júlio Emílio de Paiva Rosa ("As infelicidades de Tibério"). No século XX salientavam-se nesse tipo literário Amélia Bevilaqua e Clodoaldo Freitas. E mais perto de nós se encontram Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, Lilizinha Carvalho, Edgar Nogueira, Fontes Ibiapina, para que se citem apenas os que passaram desta para melhor vida. Mas no meio desses cumpre colocar o principal deles, o que deu expressão ao conto regional piauiense, homenageado, ano a ano, com um concurso de contos que leva o seu nome - João Pinheiro, falecido no Rio de Janeiro mais de quarenta anos passados. Dentista da profissão, chegou a criar e vender o "Pó Ideal", dentifrício aromático.

Mas seguiria outros rumos - o magistério, em que se tornou mestre acatado de português; e as atividades intelectuais, respeitável estudioso de nossa história e de nossa vida literária, além de poeta e contista. Entre outros trabalhos, publicou uma história da literatura piauiense, em que fixa as suas fases iniciais, autores respectivos, analisando-lhes, embora sem profundidade, as obras que publicaram. Talvez o primeiro caminho seguro para os futuros intérpretes futuros. No terreno da ficção, publicou dois livros de contos - "A toa" e "Fogo de Palha", servindo-se do material das lendas ou de acontecimentos reais. Retrata com talento caracteres físicos e reproduz nos diálogos a fala sertaneja, com sinceridade. As suas descrições de cenários naturais parecem copiadas pela acuidade de pintor genial.

As páginas de João Pinheiro entusiasmam por virtude de um estilo simples e do modo tão dele de reproduzir cenas em que cabras corajosos do sertão duro se mostram em toda a arrogância nas lutas de suor e morte. O contista piauiense merece ser relido das novas gerações.


A. Tito Filho, 27/11/1987, Jornal O Dia

SETENTA ANOS

A 4 de agosto de 1901 - conta João Pinheiro - reuniram-se, em casa do próprio memorialista, rua da Glória, Higino Cunha, Arquelau Mendes, Luís Evandro Teixeira, Domingos Monteiro, João Pinheiro, Antonino Freire, Clodoaldo Freitas, Manoel Lopes Correia Lima, João José Pinheiro e Fócion Caldas, e criaram a Academia Piauiense, para constante trabalho em favor do primeiro domingo seguinte, o que não houve. A iniciativa faleceu no nascedouro. Surgiram outras associações literárias, como a "Sociedade José Coriolano", os grêmios "Esperança", "David Caldas", e o primeiro “Cenáculo Piauiense de Letras”, em 1913, nascido morto.

Fundaram-se seguidamente o Congresso Estadual de Letras (1914), a Academia Piauiense de Letras (1917), a Arcádia dos Novos (1918), o Cenáculo Piauiense de Letras, pela segunda vez (1927), a Associação dos Moços Teresinenses (1932) e o Clube dos Novos (1946), este sob o comando de M. Paulo Nunes, para falar das entidades criadas antes do primeiro centenário de Teresina, todas de vida curta, com exceção da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, - e este não morreu por virtude dos teimosos e grandes esforços de Josias Carneiro da Silva.

A idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras coube a Lucídio Freitas, jovem poeta muito admirado. Deu-se o episodio as nove da manha de 30-12/1917, no Salão nobre do Conselho Municipal, Praça Marechal Deodoro, prédio em que durante muitos anos funcionou a Intendência e de 1936 em diante a Prefeitura. Fundadores, por ordem do registro da ata respectiva: Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas, Celso Pinheiro e Lucídio Freitas, que foi presidente da reunião.

De 1917 até hoje governaram o sodalício os presidentes Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Matias Olímpio, Martins Napoleão, Álvaro Ferreira, Clidenor Freitas Santos, Simplício Mendes. Desde 1971, vem sendo conduzida humildemente pelo autor destas notas.

A instituição manteve-se fiel a Lucídio Freitas e aos seus nove companheiros fundadores. Funcionou em casas particulares, em prédios oficiais ou alugados pelo governo, viveu sem tostão, aqui e ali auxiliada por governantes decentes que lhe publicavam a revista e obras literárias dos acadêmicos - mas nunca esmoreceu. Possui hoje a sede própria e sustenta-se de pequenas rendas que lhe proporcionam órgãos do governo, e prossegue, com dignidade, o modesto trabalho de bem servir, sem que jamais tenha cobrado de quem quer que seja pagamento de serviços prestados, pois tem como dever precípuo a cooperação com a vida cultural da terra.

Setenta anos está inteirando a Casa de Lucídio Freitas neste dia 30 de dezembro de 1987. Orgulho-me dela e dos companheiros que me ajudam a conduzi-la, no respeito permanente à memória dos que a fizeram e não permitiriam que o ideal morresse - o ideal de Lucídio, tão grande que continua vivo e inspirador.


A. Tito Filho, 30/12/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A ADORÁVEL DORA

O cavalo é dos mais nobres amigos do homem. Nos Estados Unidos, ao mesmo tempo do oeste selvagem, dos caubóis, do reino do gado, rude, dos homens que dependiam da faca e do revólver - tempo da violência, num mundo de libertação explosiva e do derivativo do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substituto da mulher difícil e rara, valia mais a vida do cavalo do que a do próprio homem.

Esse quadrúpede de grande inteligência goza de celebridade universal. Todos os povos lhe cantam as virtudes de resistência e dedicação ao dono, embora se diga cavalo do indivíduo grosseiro e se tomou cavalo como denominação de doença venérea. Cavalo está no jogo dos 25 bichos, de número 11, batiza peça do jogo de xadrez e significa cousa complicada quando na expressão cavalo de batalha.

No famoso D. Quixote, de Cervantes, o pobre fidalgo, criado por esse gênio espanhol, sai mundo afora em luta pelo amor, pela paz, e pela justiça, no lombo de um cavalo velho e escarnado, de nome Rocinante. Os homens envelhecidos gostam de brotos esbeltos, obedientes aos conselhos dos eqüinos - capim novo é que engorda cavalo velho.

Centenas de escritores põem o cavalo nas suas obras de prosa e poesia. Todas as literaturas o consagram em páginas da melhor significação. O nosso José de Alencar, em "O Gaúcho", revela a segura estima que o sul-riograndense dedica a esse quadrúpede de inigualável serventia do homem antes do transporte motorizado.

A lenda e a história enriquecem-se de tipos cavalares célebres, como o de Napoleão Bonaparte. No cavalo alado Pégaso, Belerofonte matou Quimera, espantoso animal, mistura de leão, dragão e cabra, a vomitar continuamente chamas.

Parece que foi o imperador Calígula que fez do cavalo Incitatus senador do Império Romano. E se tornou proverbial o cavalo de Tróia, enorme cavalo de madeira que os gregos, a conselho de Ulisses, ardilosamente construíram e encheram o bojo de soldados armados e mandaram-no de presente aos troianos.

Presente de grego passou a linguagem como ardil, falsidade.

Por mais que se relacionassem cavalos da história, da lenda, dos tempos heróicos, da vida, enfim, só se completaria a lista com os cavalos bonitos, ventas arfantes, crinas ao vento, no gozo da liberdade nas campinas sem fim, - e cada garanhão no Governo ditatorial das éguas esbeltas, no ciclo do cio - os cavalos garbosos que Dora Parentes sabe pintar, ao lado de mulheres sensíveis ao amor vital, - macho e fêmea na maravilhosa compreensão do desejo recíproco.

Dora nasceu num pedaço do Piauí, a progressista Piripiri, e agora veio do Rio, onde pinta mulheres e cavalos, amados amantes em paixão de fogo, para uma visita a amigos e à Academia Piauiense. Dias de convivência inesquecível com essa artista alegre, educada, culta, sem preconceitos, esbelta, sem imitadores na sua arte original de harmonizar a liberdade e o desejo sensual em dois seres representativos, como a mulher e o cavalo.


A. Tito Filho, 11/12/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

LITERATURA PIAUIENSE

Quando, em 1973, organizei e comentei, a pedido de Deoclécio Dantas, toda a produção literária de Raimundo Zito Batista, escrevi, no livro que se publicou, o seguinte, a respeito da sua poesia: "Em Zito não há o sentimento da paisagem piauiense. Amadureceu no mundo da máquina, da metralhadora, do avião, da guerra - mas esses temas não se revelam nas suas criações poéticas. Toda a sua temática é melancólica - as angustias íntimas vitais e universais. Verso denso, enérgico, grave, dolorido. Habilíssimo no decassílabo. Sua obra revitaliza os temas fundamentais do amor, do ódio, da mulher, do sofrimento. Puro tradicionalismo estético, de terrível sinceridade, de realidade viva e dolorosa. São raros os poetas como ele, de tanta força expressiva. Há, nas suas concepções, desolada e humana visão da vida e da intimidade do homem. Poesia psicológica - poesia essencial".

Na poesia de Zito não se encontra o Piauí, na sua paisagem social, histórica ou geográfica. Pelo menos não a encontrei, embora lesse e relesse os poemas com dobrada atenção. E outros nascidos em terras piauienses fizeram literatura pelo mesmo jeito de Zito nos versos concebidos: não há temas interiores ou exteriores com o Piauí. Esses autores, pois, como Cruz e Sousa em Santa Catarina, pertencem à literatura brasileira, nunca a literatura da chamada terra natal. Defendo o principio de que a literatura piauiense se comporá dos documentos cujo conteúdo seja de temas de nossa terra, com problemas de qualquer natureza, e se assim acontece, óbvio será que à obra se incorporará o cenário natural piauiense.

O admirável Assis Brasil publicou um livro em que o Parnaíba é personagem principal - e todo o seu cortejo exuberante de beleza e riqueza na meninice do escritor. Do cenário piauiense, social e geográfico do Piauí se apresenta a denominada Teatrologia, integrada dos romances verdadeiros "Beira Rio Beira Vida", "A Filha do Meio Quilo", "O Salto do Cavalo Cobridor" e "Pacamão". Todos os demais produtos literários da inteligência de Assis Brasil - uns 50 livros - não pertencem à literatura piauiense.

Assim penso, salvo melhor juízo dos doutos e entendedores universais do assunto.


A. Tito Filho, 08/11/87, Jornal O Dia

domingo, 12 de junho de 2011

CONTRIBUIÇÃO DOS MOÇOS

Dirigimos o Colégio Estadual do Piauí, o velho e querido educandário fundado por Zacarias de Góis e Vasconcelos, no Piauí-Província, hoje com o nome do fundador - dirigímo-lo no período de 1954-11958, e dele guardamos proveitosa experiência: os moços são bons, amigos sinceros e gostam das atitudes sérias e da ordem, da disciplina consciente, do estudo e da convivência. Desviam-se do caminho certo quando por parte dos adultos recebem a lição da sem-vergonhice, da desonestidade, da desfaçatez, do inescrúpulo, do cinismo. Existiriam, pois, maduros transviados, e o transviamento do jovem se daria por através daqueles.

No enterrado mês de setembro de 1987, decorreu o primeiro centenário de nascimento de Raimundo Zito Batista, poeta de bonitas concepções líricas, nascido em Natal, povoado de Teresina, depois unidade piauiense autônoma com o batismo de Monsenhor Gil. Estudiosos universitários dessa simpática comunidadezinha, antigo quartel de Luiz Carlos Prestes no cerco da capital piauiense, demonstraram que a mocidade tem riqueza cívica e espiritual - e criaram a Associação Universitária de Monsenhor Gil, cujas primeiras atividades se voltaram para reviver a figura do poeta Zito Batista, e o fizeram de maneira exemplar, num debate sobre a poesia do homenageado, e deram à luz plaqueta em que se reuniram comentários de boa cepa de talentosos estudantes conterrâneos do centenariante - crítica literária do melhor conceito. J. Cardoso do Nascimento Júnior, Mário Medeiros, Joaquim Campelo Filho, Carlos Alberto Pessoa prestaram serviços valiosos à literatura piauiense, em análise e interpretação de uma obra vasta e complexa, ao mesmo tempo em que viveram instantes de glória do infeliz e angustiado varejador.

Raras instituições piauienses se lembraram de Zito Batista. Sabemos de duas: a Academia Piauiense de Letras, que  divulgou a vida e a obra do poeta pelo jornalismo, e a promissora Associação Universitária de Monsenhor Gil, com o apoio e a solidariedade da Secretaria de Educação e da casa de Lucídio Freitas.

A novela nacional pelas têves não permitem que se conheçam a inteligência e o poder criativo dos piauienses mortos. Melhor a educação para a ignorância aprendendo-se que Édipo-rei não passou de reles contrabandista de pedras preciosas.

Graças a Deus Sófocles está vivo - porque os mortos, na sentença de Grieco, não raro mais vivos que os vivos, como a contribuição dos jovens de Monsenhor Gil provou.


A. Tito Filho, 06/11/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CELSO O POBREZINHO

Era em 1936. Centenário do jornalista Davi Caldas. O governador Leônidas Melo realizou grandes festas comemorativas. Solenidades literárias, edição extraordinária de jornais. Muita despesa dos cofres públicos. Petrônio Portella, no seu tempo governamental, instituiu concursos, deu dinheiro para alguns grupos teatrais, publicou livros de piauienses. Alberto Silva, no primeiro Governo, editou cerca de quarenta obras, sob orientação da Academia Piauiense de Letras e esta nem o seu presidente, pelo relevante e estafante serviço, nada cobraram. Dirceu Arcoverde mandou-me no rumo de Recife, deu-me passagem e alguns níqueis para hospedagem. Acompanhei a confecção dos painéis de poesias de Da Costa e Silva, durante cinco dias, enfrentando chuva, nas oficinas desconfortáveis de Bórsoi, os painéis para a praça do mesmo nome, em Teresina. Nenhum tostão tive de pagamento. A Casa de Lucídio Freitas tem prestado valiosa colaboração ao Piauí, a Teresina, a organismos oficiais, a entidades particularidades, educandários, estudantes, jovens escritores - e jamais cobrou, ou o autor destas linhas, um centavo de quem quer que seja, Lucídio Portella, à frente da administração do Estado, promoveu comemorações dos centenários de Matias Olímpio e Pedro Brito. Autorizou elevadas despesas com solenidades, recepções, livros, sob orientação da APL. O Governador Hugo Napoleão viveu um ano inteiro festejando o primeiro centenário de Da Costa e Silva. Pagou jornais e jornalistas. Fez reuniões em Brasília. Conferências literárias em Teresina, com vinda de diplomata de Londres. Realizou caríssimas edições especiais de revistas, obra completa do poeta, em trabalho de luxo, confeccionado na Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. Deram-se permanentes festejos em Amarante, - milhões e milhões de cruzeiros gastos em programas comemorativos. Até camisa com o retrato do grande escritor foi distribuída. Esses governadores cumpriram o dever sagrado de prestigiar os mortos queridos do Piauí, que projetaram a terra nos domínios da inteligência. Aplaudiram-nos todos os setores conscientes da sociedade. Dias de beleza espiritual. Recordaram-se as memórias de conterrâneos ilustres. Chegou este ano de 1987 a vez de Celso Pinheiro, piauiense, uma das maiores vozes da poesia nacional, que, vivo, estaria completando o primeiro centenário de nascimento. Quase nada se fez em sua homenagem. Um recitativo aqui, um discursozinho ali. Ninguém lhe deu projeção. A neta culta, Lina Celso, com apoio do Projeto Petrônio Portella, entregará brevemente ao público um livro do poeta, dos mais de vinte títulos que ele organizou. A Academia Piauiense de Letras, em sessão, fez o elogio de Celso e lembrou-lhe a obra aureolada. E para conhecimento da coletividade distribuiu quinze linhas datilografadas sobre o imenso morto, com bilhetes de pedidos de divulgação dirigidos a Octávio Miranda, Elvira Raulino, Mário Soares, Paulo Henrique, Edmilson Caminha Júnior, Luiz Alberto Falcão, Dídimo de Castro, Padre Tony e à Secretaria de Comunicação do Governo do Estado. Pedi a divulgação, pois a Academia não possui dinheiro para pagar publicações jornalísticas. Tem subvenção de vinte mil cruzados mensais, quantia que mal paga material de expediente, material de limpeza, correspondência no correio e outros gastos mínimos, e anualmente o MEC lhe oferece uma esmola - este ano de 1987 apenas vinte e oito mil cruzados. Não foi possível promover comemorações significativas. A Casa de Lucídio Freitas não dispõe de recursos. A própria sede em que funciona constitui presente do ex-governador Hugo Napoleão, que ainda lhe deu máquinas de escrever e mobiliário, - ato da maior grandeza espiritual. Pobrezinho do Celso Pinheiro. Poeta imenso, viveu amargurado, tuberculoso, rico apenas de cabeça e coração - continua a padecer o esquecimento e a injustiça dos homens perversos.


A. Tito Filho, 06/12/1987, Jornal O Dia

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.

Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.

A. Tito Filho, 01/12/1987, Jornal O Dia