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domingo, 19 de junho de 2011

50 ANOS PASSADOS

Getúlio Vargas subiu ao poder na crise revolucionária de 1930. Governou ditatorialmente o País até que se votou a Constituição Federal de 1934, quando os constituintes o elegeram presidente da República para um mandato de quatro anos. Em 1935, houve os episódios comunistas de assalto aos quartéis e forjou-se o Plano Cohen, como de comunistas, mas na verdade criação de interessados num golpe contra o regime. Iniciou-se a caça às bruxas, com inquéritos por todos os recantos e prisões às pencas, inclusive do líder Luiz Carlos Prestes. No ano de 1937, três candidatos à presidência entusiasmavam o Brasil: José Américo de Almeida, paraibano, criador do romance regional com "A Bagaceira", advogado, ex-ministro da Viação, apoiado pelas forças situacionistas, à frente das quais o presidente Vargas; Armando de Sales Oliveira, o ex-governador de São Paulo, dono de popularidade irrecusável no seu Estado; e Plínio Salgado, escritor de formação totalitária, chefe nacional do integralismo brasileiro. Inflamados oradores os três, arregimentavam multidões na realização de comícios memoráveis. A 7 de setembro de 1937, Getúlio falaria aos brasileiros num bonito discurso de  despedida presidencial. Por trás das paredes do Palácio do Catete, porém, tramava-se o golpe, finalmente vibrado a 10 de novembro do mesmo ano. Encerraram-se as atividades do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereança. Outorgou-se ao País nova Constituição concebida e redigida pelo maquiavelismo de Francisco Campos. Mantinha-se no poder Getúlio Vargas, instituidor de feroz regime ditatorial, de perseguições, torturas e mortes, a cargo do carcereiro Felinto Muller.

Vários líderes nacionais foram expatriados. Esse estúpido regime contra os direitos humanos, de grandes malefícios impostos à nação sofredora e censura drástica, ruiu totalmente a 29 de outubro de 1945, com a graça de Deus. Getúlio retornaria ao poder em 1951, para matar-se no Palácio do Catete, com um tiro de revólver no peito esquerdo, a 24 de agosto de 1954.

A. Tito Filho, 12/11/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 17 de junho de 2011

AS REFORMAS DO ENSINO

A gente não sabe se existem mais constituições federais ou reformas do ensino. Necessariamente o Brasil tem sido o País das reformas, até nos nomes da moeda nacional: a pataca, o mil-réis, o cruzeiro, o cruzado e quantas outras. Desde quando me entendo, a primeira reforma do ensino pertence a Francisco Campos, ou Chico Ciência, o mesmo que redigiu a Polaca, ou Constituição Vargas. Pois bem. Aos cinco anos de ginásio, o sagaz reformista acresceu dois, o pré, distribuído em três ramos: pré-jurídico, pré-médico e pré-técnico. O jovem escolhia com antecedência a profissão e realizava o curso cujas disciplinas já lhe asseguravam base para a futura faculdade superior. Gustavo Capanema, também como o anterior ministro da ditadura, fez a sua reforma: ginásio de quatro anos, três anos de curso clássico ou científico. Isto se deu por volta da década de 40. Chegaria a vez de nova reforma, nos anos 70, sob o patrocínio de nova ditadura, a inaugurada em 1964: vários anos de 1º grau e mais três anos de 2º grau.

Introduziu-se ainda o ensino profissionalizante. Falta a reforma cívica, a reforma que exonere o inglês e o francês do vestibular. Ainda vive o Brasil subservientemente com a exigência de uma dessas línguas para exame de ingresso nas universidades. Não há necessidade de o futuro doutor saber inglês ou francês. A própria universidade afirma que as duas línguas são desnecessárias, desde o instante em que confere ao candidato a prerrogativa de escolher entre uma e outra. E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o chinês? O inglês, ou o francês, podem participar da cultura especializada, de quem quer que seja, nunca de maneira obrigatória nos centros universitários. Argumente-se que as grandes obras para a formação de um doutor sejam em inglês, ou francês, o que não corresponde a verdade. Caso fossem, essas obras poderiam existir em tradução portuguesa, como existem em traduções de livros originalmente escritos noutras línguas. Nem doutor turista necessita de inglês, ou francês. Em toda parte existem guias e interpretes. Será que na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França se exige português nas provas de ingresso nas universidades? Há necessidade de mais uma reforma: a abolição da subserviência.


A. Tito Filho, 11/11/1987, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O MANIFESTO

Derrotada a Coluna Prestes, o seu Chefe, o estrategista Luiz Carlos, internou-se na Bolívia, de onde seguiu para a Argentina, e na capital portenha recebeu curso de comunismo. E como comunista Prestes retornou ao Brasil, bem doutrinado nas teses de Marx, Engels, Lenine, depois Stalin. No Rio, iniciou arregimentação, foi perseguido, condenado, preso. Em 1945, com os benefícios da anistia, saiu da cadeia, aderiu ao seu vigilante carcereiro, de nome Getúlio Vargas, e elegeu-se, no pleito de 2 de dezembro de 1945, senador da República - mandato que lhe foi cassado, no ano de 1945, no Governo do general Eurico Dutra. Criou-se no Brasil o medo ao comunismo - e desse medo e dos sentimentos cívicos dos quartéis militares nasceu a repulsa ao regime de Moscou, e dos satélites da imensa Rússia. O mágico Getúlio, ano de 1937, acabou com as eleições presidenciais de 1938, outorgou aos brasileiros a Constituição de novembro, e implantou uma ditadura pessoal de oito anos.

A base de todo esse aparatoso regime denominado Estado Novo foi o suposto Plano Cohen, de natureza comunista, que depois se tornaria uma das mentiras mais desastrosas do Brasil. Afinal de contas o regime dos bolchevistas, criado pelo manifesto do sociólogo e historiador Marx, ajudado por Engels, que pretendia e pretendeu? Apenas dos seguintes princípios se compõe a proposta marxista: 1) expropriação da propriedade privada das terras, imposto de renda progressivo, abolição da herança, a criação do banco nacional para monopolizar operações, a estatização das ferrovias e meios de comunicação, o cultivo de terras ociosas, o solo a serviço da comunidade, o trabalho obrigatório, a unificação da agricultura com a indústria, a descentralização populacional, o ensino gratuito, a proibição do trabalho à criança. Muitos países do Ocidente - Inglaterra, Alemanha, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal, França, como exemplos, já copiaram as normas do manifesto de Marx. O próprio Brasil acatou alguns dos seus princípios. A lição está nisto: o comunismo não é tão feio quanto o pintam certos declarados inimigos do progresso social. Neste mês de novembro de 1987 decorrem setenta anos de comunidades das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fato histórico irrecusável, sérias conseqüências para os destinos da humanidade.


A. Tito Filho, 10/11/1987, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de maio de 2011

DEFUNTA E RAINHA

Gosto de ler essas histórias velhas, antigas de séculos. Camões escreveu que ela era donzela, embora não fosse virgem, porque, no tempo do épico maravilhoso, donzela queria dizer mulher nova - e o autor de "Os Lusíadas" referia-se à bela Inês de Castro, cujas desventuras o padre Luciano Duarte conta com graça e leveza de estilo. Dom Pedro príncipe, por deliberação do rei seu pai, casou-se com uma princesa portuguesa, residente na Espanha, que trouxe, na comitiva da noiva, uma dama de companhia de extraordinária beleza, Inês de Castro, por quem o herdeiro se apaixonou. A esposa procurou apagar o fogo do marido, internando a bonita espanhola num convento. Tudo se passou em Coimbra. Dom Pedro manda cartas de amor a Inês e com esta quis casar-se quando ficou viúvo. Era no tempo das intrigas da corte e os nobres se opõem ao casório, com medo de que a Espanha volte a dominar Portugal. O amor principesco é forte demais. A nada cede, Inês mora na Quinta das Lágrimas e no banco de pedra, ao lado da fonte murmurante - conta o padre - o príncipe sempre diz palavras de amor à amada mulher. Jura-lhe fidelidade. Paixão à moda antiga. Mas os nobres do reino não suportam o romance e obtêm do rei licença para tirar Inês do caminho, por via de assassinato, para o que recebeu autorização. O padre Luciano escreve: "E, uma manhã, enquanto Dom Pedro estava longe, três nobres batem à porta de Dona Inês. Esta aparece rodeada de seus três filhos que choram. Os assassinos a conduzem ao jardim, onde a sacrificam". Isto se passou no século XIV, precisamente a 17 de janeiro de mil trezentos e cinqüenta e cinco. Dois anos depois do crime tenebroso, morreu o monarca e Dom Pedro subiu ao trono. Mandou apurar os fatos. Queria justiça.

Conseguiu prender dois dos assassinos, pois o outro fugiu para a Espanha. Abriu as costas de ambos - narra o padre - arrancou-lhes os corações, mordeu-os e atirou-os aos cães. Vingança de rei daquele tempo.

E mandou desenterrar Dona Inês, já toda ossos, assentou-se no trono de Sá de Coimbra, coroou-a a rainha de Portugal e obrigou a corte a beijar a mão do esqueleto. Defunta e soberana, como conta a crônica dos reis e príncipes. Inês de Castro tornou-se personagem de uns dos mais bonitos episódios de "Os Lusíadas" e tem sido assunto de peças teatrais e concepções poéticas sem conta. Já era mãe quando veio em comitiva como dama de companhia da mulher do seu futuro amado. Quantos episódios trágicos enriquecem a vida do homem - dos príncipes e dos humildes indivíduos, vítimas das ambições e ódios alheios e sobretudo da injustiça dos semelhantes. A posteridade, no episódio de Inês de Castro, designou Dom Pedro de o justiceiro, num batismo que a história consagrou.

Sempre que posso leio e releio a história comovente dessa espanhola sacrificada pelas injunções políticas e que teve forças para não repelir os sentimentos de devoção a um grande amor.


A. Tito Filho, 05/12/1987, Jornal O Dia